no man is an island, mas não é preciso gostarmos todos do azul

Há coisas aborrecidas mas que aceitamos, na idade delas. E depois há aquela fronteira ténue, é-da-idade-mas-já-não-é-idade-para, e que vamos aceitando, apesar de mais contrariados e com mais água para ajudar a engolir. Mas chega uma altura em que já não se aguenta – esgotaram-se as desculpas e só apetece perguntar quando é que tal pessoa se decide a crescer. Afinal, já não tem idade para aquilo. Achamos nós.

Penso nisto muitas vezes quando me confronto com o espírito de manada. Aquelas pessoas maria-vai-com-as-outras, que fazem sondagens de opinião mais abrangentes que as da Universidade Católica antes de tomar qualquer decisão. E que depois a tomam com base no que faria a maioria.

Eu gosto da segurança – que até poderá ser falsa, mas que sinto – de saber tomar as minhas próprias decisões. Se são das pesadas, capazes de mudar a minha vida, converso com quem poderá ser afectado por elas ou com quem me é mais próximo e me conhece. Se é para decidir o que fazer para o jantar, o que ler a seguir ou por onde estudar para uma cadeira, decido eu. Haverá alguém tão capaz de se pôr nos meus sapatos como eu? De saber o que me apetece comer ou se hoje me apetece vestir saia? (já se vê que seguir modas cá por casa só se as ditas encaixarem em mim e não por me encaixar eu nelas)

O espírito de manada é coisa própria da adolescência, em que o sentido de grupo e de identificação com os pares cumpre a sua função de construção do eu e da independência e autonomia. O facto de nós pensarmos e dizermos o mesmo que os outros (mesmo que possamos não pensar nem sentir efectivamente assim) dá força aos argumentos que usamos contra quem nos governa a casa. Faz-nos mais do que só nós, sozinhos contra a opressão (eu era uma adolescente melodramática, ainda que nada oprimida).

Mas e depois? Depois crescemos, idealmente. E se tivermos crescido bem, com a segurança de que somos capazes de pensar pela nossa cabeça, deixamos de ir pela bitola dos outros. Temos a nossa, que vamos orientando e oleando com as experiências e os erros, nossos e, se formos espertos, dos outros também. Continuamos capazes de identificação e empatia com quem pensa como nós, mas deixamos de nos transformar nessas pessoas para podermos sentir-nos gente.

Parece que às vezes não passa. Não sei se é insegurança, baixa auto-estima ou falta de treino no uso do juízo crítico e do livre arbítrio. Mas é coisa que me baralha, que me faz confusão. Deve ser muito cansativo, guiarmo-nos a vida toda por um caminho que não desenhamos. Como passar os anos a conduzir atrás de um outro carro, sempre com medo de o perder de vista.

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