Monthly Archives: Setembro 2012

embirrações de domingo à tarde

Uma pessoa queixar-se da mãe e vir outra e dizer olha, pelo menos tens mãe é uma idiotice. Eu já não tenho mãe e, mesmo que às vezes isso me passe de fugida pela cabeça, nunca o hei-de dizer a ninguém.

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contributo para uma discussão mais racional

Ontem foi um dia muito difícil para mim. Questionei a minha racionalidade, a minha moral e a minha ética. Perguntei-me se teria passado os últimos 20 anos a achar-me de um lado do espectro quando, afinal, estaria noutro. Demorei a pôr as ideias no sítio e ainda não cheguei exactamente lá. Mas o caminho faz-se passo a passo e é preciso ir pensando nas coisas.

Quando se discute, é bom ter os dados todos. Saber, por exemplo, o preço daquilo que se está a ponderar cortar. Sabem quanto custa 1 injecção daqueles medicamentos biológicos de que se fala e que os doentes tomam a cada 2, 3 ou 4 semanas? Uma só injecção custa milhares de euros. Mesmo. Um medicamento que se dá num linfoma (não me lembro agora qual e desculpem-me mas não me apetece ir ver) custa 5.000€ por injecção. Há outros mais caros, outros mais baratos.
O nosso sistema de saúde baseia os seus princípios éticos numa lógica de justiça distributiva – com tudo o que isso tem de bom (os mesmos cuidados de saúde e tendencialmente gratuitos para todos) e de mau (em Portugal não usamos os fármacos topo de gama para a quimioterapia, por exemplo, porque são demasiado caros e não conseguiríamos oferecê-los a toda a gente). O conselho de ética foi criado precisamente para assegurar que a tal da justiça distributiva é mantida.
Eu, honestamente, não sei como contornar esta situação. Não cortar? Ok. Mas se o dinheiro não cresce, então não cortar aqui vai implicar cortes noutros sítios – que se calhar até vão prejudicar mais pessoas, com igual gravidade. Cortar? Também me parece mal, porque, lá está, todos deveríamos ter o direito a viver o mais possível com a maior qualidade de vida possível.
Mas se chegamos a uma situação limite, em que ou cortamos 10 ou somos obrigados a cortar 100, então não será preferível cortar esses 10? Não será preferível pegar nos 10.000€ que aquele doente ia gastar no último mês da sua vida e usá-lo de uma forma que salve mais vidas? Se calhar não, porque as vidas não se podem comparar assim, como se 100 valessem mais do que 10. Mas na gestão têm de se contar assim, porque o dinheiro, de facto, não cresce.

Importa clarificar algumas outras coisas, também:

  1. não vai haver gente com hipóteses de cura a ficar sem tratamento. Vai é continuar a fazer-se como até aqui (e o bastonário actual vir criticar é de uma grande hipocrisia, porque já se faz só que não se diz que se faz): não há o topo de gama dos fármacos de quimioterapia, porque só poderíamos dar tratamento a uma porção dos doentes. Há uns menos melhores mas que nos permitem tratar 100%. E todos os dias há gestores de hospitais a proibir o uso de certos fármacos porque são muito caros. Era preferível continuar a fazer-se às escondidas? Pelo menos agora está claro que se escolhem os mais baratos dos melhores (para usar as palavras do senhor). Até aqui fazia-se isso e não se dizia nada.
  2. a quem se vai cortar tratamentos (não sei critérios, não sei quem decide, não sei nada; aliás, acho que ninguém sabe bem, ainda) é nos casos terminais. Atenção: vão cortar-se tratamentos CURATIVOS e não PALIATIVOS, como li muita gente confundir pela internet fora. Nos curativos, vão escolher-se fármacos mais baratos – que, repito, já é prática comum, só que o público não sabe.
  3. não é uma questão de merecer ou não merecer. A ser bem feito (e, lá está, isto é o que ainda não se sabe, até porque a comissão de ética não tem poder de decisão sobre isto, agora é o ministério que resolve), vai ser como o que já acontece agora. Agora também já se param terapêuticas ou nem se iniciam, se se concluir que a) não vão prolongar a vida do doente ou b) vão prolongá-la mas sem qualidade de vida.

Eu não acho mal que estas coisas, que já se fazem, se passem a fazer às claras. Porque acho importante percebermos isto. Eu confesso que fiquei muito chocada quando me disseram, no primeiro ano de medicina, que cá não se usavam os melhores quimioterápicos. Como não?! Mas se pararmos um bocadinho, percebemos: como podemos usar os melhores fármacos, se assim só tratávamos parte dos doentes?

Tudo isto é muito difícil, de pensar e de discutir. E eu não acredito que o presidente da comissão de ética tenha dito o que disse de ânimo leve. Não consigo acreditar. Nem que a comissão de ética (que decidiu com unanimidade) o tenha feito também de ânimo leve. Mas acho que às vezes não há grande escolha, pois não? Numa metáfora feia, mas muito apropriada: às vezes temos de amputar o pé para não perdermos a perna toda. É duro, é feio, mas é a realidade.

E sim, isto é horrível. E o senhor se calhar não escolheu as melhores palavras. E idealmente era muito melhor se pudessemos ter todos os melhores medicamentos e as melhores condições. Mas parece que não temos dinheiro para isso. Nem os países ricos têm dinheiro para isso.

E sim, devíamos cortar noutros sítios e não aqui, mas se não tivessemos mais onde cortar e esta questão se pusesse estávamos aqui outra vez.

Podemos entrar por outro lado e questionar por que razão são os tratamentos e os medicamentos tão caros. E esse é um caminho ainda mais complicado. Tomemos, por exemplo, os tais biológicos referidos acima.

Os biológicos custam fortunas porque são anticorpos sintéticos e ainda são de produção muito cara. Mas também custam fortunas porque as farmacêuticas que os desenvolveram têm a patente dos fármacos. Ora, isto resolvia-se facilmente se mudássemos a política de patentes e impedíssemos a “patente exclusiva” ou lá o que é (não faço ideia se se chama assim, mas vocês percebem). Mas se tirássemos às farmacêuticas o incentivo das patentes (que é o que lhes permite ganhar MUITO dinheiro com os medicamentos que desenvolvem) estaríamos a tirar-lhes a única razão pela qual elas investem biliões de euros na investigação e desenvolvimento de novos medicamentos. As farmacêuticas passariam a viver dos lucros dos fármacos que já criaram e a investigação ficava só nas faculdades e institutos públicos – que não têm dinheiro nenhum, comparados com os gigantes da área. E a medicina parava no tempo.
Era bom que houvesse quem fizesse investigação pelo bem da humanidade, sem exigir nada em troca? Era incrível. Mas não me parece que vá acontecer.

 Há discussões impossíveis. E que se tornam ainda mais difíceis pela histeria colectiva que geram. Usar termos como “eutanásia dos pobres” ou eugenia é o equivalente a gritar fogo num estádio apinhado – começa tudo a gritar e a correr para a porta e já ninguém ouve o senhor lá ao fundo a dizer que não, foi só uma beata que pegou fogo a um caixote do lixo. Não ajuda à discussão, não permite a discussão.

Não queiram fazer preto ou branco de uma questão com tantos tons de cinzento. Não ajuda ninguém, não adianta nada. E já agora, vão ler o Público, que foi o único que, ontem e hoje, falou com calma e cuidado sobre esta questão, sem gritar fogo como os outros jornais fizeram.

é importante não corrermos todos para a porta

A Helena diz tudo o que eu queria dizer, por hoje:

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A propósito do parecer do Conselho Nacional de Ética, que me parece estar ainda bastante longe de propor a eutanásia dos “degenerados” (ao contrário do que a recente tsunami de indignação afirma), fui consultar alguns quadros no site PORDATA.

Fazendo as contas muito em cima do joelho:

– Em 2011, o SNS representava 33% do orçamento geral do Estado. Em 2000, era 21%.
– Entre 2000 e 2010, a despesa estatal para saúde, por habitante, aumentou 23% (a preços constantes)
– Em 10 anos (de 2000 a 2010) o peso da saúde no orçamento do Estado subiu de 4,3 para 5,7% do PIB.

Espero que não me chamem Mengele se perguntar:
– Porque é que o SNS está a levar uma parcela cada vez maior do orçamento de Estado?
– Os descontos salariais para o SNS são suficientes para assegurar o pagamento destas despesas, ou o Estado tem de ir buscar a mais algum lado um montante em falta?

Pode ser que haja ainda muitos abusos para corrigir, mas é inegável que o fantástico nível de cuidados medicinais que são tecnica e cientificamente possíveis no nosso tempo têm o seu custo, e que este tem vindo a crescer. E não se trata apenas de Portugal: todos os países são obrigados a tomar decisões extremamente difíceis no que diz respeito aos cuidados garantidos pelo SNS.
Tenho visto que na Alemanha o leque de cuidados prestados está cada vez mais fechado, enquanto os descontos respectivos no salário estão a aumentar. Foi até criado um desconto novo, para pagar os cuidados continuados na velhice.

Estas coisas não são simples. Nada simples. E mais vale não complicar a discussão com sobressaltos ideológicos que não levam a lado nenhum.
O problema é que a medicina evoluiu para um patamar de possibilidades que nenhuma sociedade consegue pagar, e não sabemos como traçar a fronteira entre o que é possível e o que deve ser considerado o direito inalienável de cada um.

Torturada. É torturada que me sinto.

Hoje não abro as comportas. Estou triste e irritada e frustrada com o que se passa na e com o que se diz da Saúde. Quando tiver arrumado as ideias falamos.

ser ou não ser cabeça de vento

Hoje tive outro pensamento genial no meio da rua, onde não podia anotar até porque não tinha onde nem como, mas achei que era tão bom que não haveria maneira de me esquecer dele. Não sei se tome comprimidos para a memória ou para esta espécie de delírio megalomaníaco sobre as minhas capacidades mnésicas.

ser ou não ser à hora da insónia

Quando nos comem por lorpas e nós deixamos somos mais lorpas porque alinhamos mesmo assim ou menos lorpas porque temos conhecimento de causa?

cada um enfia o barrete que quer

Hoje mandaram-me perguntar a uma doente porque é que estava de barrete e como é que conseguia. Tive de olhar à volta para perceber se estava na faculdade certa ou se tinha entrado naquele sítio onde se faz cursos de consultoria de imagem ou lá o que é.