contributo para uma discussão mais racional

Ontem foi um dia muito difícil para mim. Questionei a minha racionalidade, a minha moral e a minha ética. Perguntei-me se teria passado os últimos 20 anos a achar-me de um lado do espectro quando, afinal, estaria noutro. Demorei a pôr as ideias no sítio e ainda não cheguei exactamente lá. Mas o caminho faz-se passo a passo e é preciso ir pensando nas coisas.

Quando se discute, é bom ter os dados todos. Saber, por exemplo, o preço daquilo que se está a ponderar cortar. Sabem quanto custa 1 injecção daqueles medicamentos biológicos de que se fala e que os doentes tomam a cada 2, 3 ou 4 semanas? Uma só injecção custa milhares de euros. Mesmo. Um medicamento que se dá num linfoma (não me lembro agora qual e desculpem-me mas não me apetece ir ver) custa 5.000€ por injecção. Há outros mais caros, outros mais baratos.
O nosso sistema de saúde baseia os seus princípios éticos numa lógica de justiça distributiva – com tudo o que isso tem de bom (os mesmos cuidados de saúde e tendencialmente gratuitos para todos) e de mau (em Portugal não usamos os fármacos topo de gama para a quimioterapia, por exemplo, porque são demasiado caros e não conseguiríamos oferecê-los a toda a gente). O conselho de ética foi criado precisamente para assegurar que a tal da justiça distributiva é mantida.
Eu, honestamente, não sei como contornar esta situação. Não cortar? Ok. Mas se o dinheiro não cresce, então não cortar aqui vai implicar cortes noutros sítios – que se calhar até vão prejudicar mais pessoas, com igual gravidade. Cortar? Também me parece mal, porque, lá está, todos deveríamos ter o direito a viver o mais possível com a maior qualidade de vida possível.
Mas se chegamos a uma situação limite, em que ou cortamos 10 ou somos obrigados a cortar 100, então não será preferível cortar esses 10? Não será preferível pegar nos 10.000€ que aquele doente ia gastar no último mês da sua vida e usá-lo de uma forma que salve mais vidas? Se calhar não, porque as vidas não se podem comparar assim, como se 100 valessem mais do que 10. Mas na gestão têm de se contar assim, porque o dinheiro, de facto, não cresce.

Importa clarificar algumas outras coisas, também:

  1. não vai haver gente com hipóteses de cura a ficar sem tratamento. Vai é continuar a fazer-se como até aqui (e o bastonário actual vir criticar é de uma grande hipocrisia, porque já se faz só que não se diz que se faz): não há o topo de gama dos fármacos de quimioterapia, porque só poderíamos dar tratamento a uma porção dos doentes. Há uns menos melhores mas que nos permitem tratar 100%. E todos os dias há gestores de hospitais a proibir o uso de certos fármacos porque são muito caros. Era preferível continuar a fazer-se às escondidas? Pelo menos agora está claro que se escolhem os mais baratos dos melhores (para usar as palavras do senhor). Até aqui fazia-se isso e não se dizia nada.
  2. a quem se vai cortar tratamentos (não sei critérios, não sei quem decide, não sei nada; aliás, acho que ninguém sabe bem, ainda) é nos casos terminais. Atenção: vão cortar-se tratamentos CURATIVOS e não PALIATIVOS, como li muita gente confundir pela internet fora. Nos curativos, vão escolher-se fármacos mais baratos – que, repito, já é prática comum, só que o público não sabe.
  3. não é uma questão de merecer ou não merecer. A ser bem feito (e, lá está, isto é o que ainda não se sabe, até porque a comissão de ética não tem poder de decisão sobre isto, agora é o ministério que resolve), vai ser como o que já acontece agora. Agora também já se param terapêuticas ou nem se iniciam, se se concluir que a) não vão prolongar a vida do doente ou b) vão prolongá-la mas sem qualidade de vida.

Eu não acho mal que estas coisas, que já se fazem, se passem a fazer às claras. Porque acho importante percebermos isto. Eu confesso que fiquei muito chocada quando me disseram, no primeiro ano de medicina, que cá não se usavam os melhores quimioterápicos. Como não?! Mas se pararmos um bocadinho, percebemos: como podemos usar os melhores fármacos, se assim só tratávamos parte dos doentes?

Tudo isto é muito difícil, de pensar e de discutir. E eu não acredito que o presidente da comissão de ética tenha dito o que disse de ânimo leve. Não consigo acreditar. Nem que a comissão de ética (que decidiu com unanimidade) o tenha feito também de ânimo leve. Mas acho que às vezes não há grande escolha, pois não? Numa metáfora feia, mas muito apropriada: às vezes temos de amputar o pé para não perdermos a perna toda. É duro, é feio, mas é a realidade.

E sim, isto é horrível. E o senhor se calhar não escolheu as melhores palavras. E idealmente era muito melhor se pudessemos ter todos os melhores medicamentos e as melhores condições. Mas parece que não temos dinheiro para isso. Nem os países ricos têm dinheiro para isso.

E sim, devíamos cortar noutros sítios e não aqui, mas se não tivessemos mais onde cortar e esta questão se pusesse estávamos aqui outra vez.

Podemos entrar por outro lado e questionar por que razão são os tratamentos e os medicamentos tão caros. E esse é um caminho ainda mais complicado. Tomemos, por exemplo, os tais biológicos referidos acima.

Os biológicos custam fortunas porque são anticorpos sintéticos e ainda são de produção muito cara. Mas também custam fortunas porque as farmacêuticas que os desenvolveram têm a patente dos fármacos. Ora, isto resolvia-se facilmente se mudássemos a política de patentes e impedíssemos a “patente exclusiva” ou lá o que é (não faço ideia se se chama assim, mas vocês percebem). Mas se tirássemos às farmacêuticas o incentivo das patentes (que é o que lhes permite ganhar MUITO dinheiro com os medicamentos que desenvolvem) estaríamos a tirar-lhes a única razão pela qual elas investem biliões de euros na investigação e desenvolvimento de novos medicamentos. As farmacêuticas passariam a viver dos lucros dos fármacos que já criaram e a investigação ficava só nas faculdades e institutos públicos – que não têm dinheiro nenhum, comparados com os gigantes da área. E a medicina parava no tempo.
Era bom que houvesse quem fizesse investigação pelo bem da humanidade, sem exigir nada em troca? Era incrível. Mas não me parece que vá acontecer.

 Há discussões impossíveis. E que se tornam ainda mais difíceis pela histeria colectiva que geram. Usar termos como “eutanásia dos pobres” ou eugenia é o equivalente a gritar fogo num estádio apinhado – começa tudo a gritar e a correr para a porta e já ninguém ouve o senhor lá ao fundo a dizer que não, foi só uma beata que pegou fogo a um caixote do lixo. Não ajuda à discussão, não permite a discussão.

Não queiram fazer preto ou branco de uma questão com tantos tons de cinzento. Não ajuda ninguém, não adianta nada. E já agora, vão ler o Público, que foi o único que, ontem e hoje, falou com calma e cuidado sobre esta questão, sem gritar fogo como os outros jornais fizeram.

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5 thoughts on “contributo para uma discussão mais racional

  1. Vespinha diz:

    Consigo compreender tudo o que dizes, mas quando nos toca pessoalmente este discernimento acaba-se. Quem não quer ter os pais, os avós ou os filhos vivos nem que seja por mais um mês? E também sei que os medicamentos mais baratos são cada vez os mais usados, mas também os menos eficazes (se os genéricos fossem assim tão fiáveis, também haveria a pílula em genérico, e não há…).

    Quando ao preço dos medicamentos de que falas, primeiro fiquei chocada e depois compreendi que esses valores também virão do investimento em investigação. Mas… a ser assim, com o montante dos valores que circulam, a investigação e a medicação não deveriam estar muito mais evoluídas? Infelizmente a doença é algo que dá muito, muito dinheiro, e isto é algo que não mudará.

    Anyway, gostei da coragem e da forma como expuseste o teu ponto de vista.

    • Mariana diz:

      Vespinha, é por isso que estas decisões têm de ser tomadas por pessoas com capacidade de pensar racionalmente e não por quem tem os pais ou os avós em situação semelhante.
      E sim, os genéricos são fiáveis. Os genéricos são feitos das mesmas substâncias químicas que os outros medicamentos, que podem finalmente ser feitos como genéricos porque a tal da patente exclusiva acabou. O problema de alguns genéricos (que já aconteceu e não é de todos, é importante sublinhar) não é o princípio do genérico em si, é o facto de as empresas que os produzem também quererem ganhar rios de dinheiro e fazerem trafulhice nos comprimidos, pondo-lhe menos princípio activo, por exemplo.
      E sim, há várias pílulas genéricas, já à venda (como por exemplo a minigeste ou a diane 35). Pode não haver de todas, mas isso pode ter várias razões, como ainda não ter acabado a patente da farmacêutica ou ser usada por muito pouca gente e não ser rentável produzir como genérico.

      • Vespinha diz:

        Já aprendi alguma coisa, isso das pílulas. 🙂

        Mas quanto aos genéricos em geral, continuo desconfiada e confirmo-o com o que dizes… como controlar as empresas que lá colocam menos princípios ativos? Em tempos já tomei um genérico de forma continuada e garanto-te que não era tão eficaz…

        Eu respeito muito a tua opinião, e admiro bastante a tua fundamentação, mas tenho pais médicos que também têm as suas… e que acabam por condicionar a minha!

        Cada cabeça… sua sentença! E ainda bem que ainda vivemos num país onde a diferença de ideias pode acontecer. 🙂

  2. Izzie diz:

    Li o público sim senhora, e lá diziam o que tu disseste e faziam uma caixa com o sistema britânico, que a AEnima explico lá na tasca da Rita. E fiquei toda contente de perceber que aprendo coisas nos blogs, e tenho o privilégio de conhecer bloggers que me explicam as coisas e percebem dos assuntos.
    ESta semana já aprendi umas coisas, e a principal foi a que devo primeiro ouvir os especialistas da área antes de me por a formular juízos. Fazer, portanto, aquilo que sempre advoguei quando esá na berra um assunto jurídico 😉 Bem feita para mim.

  3. Só mais dois comentários, sobre os tais medicamentos caríssimos:
    – as empresas investem milhões na investigação de novos medicamentos, e nem sempre têm sucesso. Quando finalmente aparece um que até vale a pena, tem de pagar as despesas da sua própria investigação, e das outras que não correram tão bem;
    – nem sempre o medicamento mais caro é o melhor. Os mais baratos, que já estão há mais tempo no mercado, estão mais estudados. Podem ser menos específicos, mas sabe-se mais sobre o modo como actuam, e as consequências que podem ter. Os medicamentos mais novos (os tais mais caros) trazem consigo riscos ainda desconhecidos.

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