em cada português um pôncio pilatos

Acredito que um dos nossos grandes problemas, enquanto sociedade, é o demissionarismo, a auto-desresponsabilização. Perante quase tudo, somos peritos em lavar dos problemas as nossas mãos, de tal forma que já as devemos ter vermelhas e esfoladas. Porque nunca é nosso o problema daquele pobre que pede porque tem fome ou da velhinha que pede porque não tem com que pagar os medicamentos. Como não é nosso o problema da reciclagem ou do lixo no chão ou das espécies ameaçadas (porque é que eu hei-de deixar de comer tamboril se os outros continuam a comê-lo? Reciclar? Mais ninguém lá no prédio recicla!). Na nossa cabeça, o problema é da sociedade. E é, concerteza. Mas era bom se nos lembrassemos, de vez em quando, que a sociedade somos nós. E que embora não podendo resolver o problema da pobreza, não custa quase nada ajudar um bocadinho, enquanto (esperamos!) aqueles que elegemos se ocupam de resolver as questões mais de fundo. Pagar um prato de sopa a alguém, levar fruta à vizinha que vive com menos que o salário mínimo, reciclar o lixo, comer menos carne. E sim, também, porque a sociedade também é feita deles, alimentar um bicho abandonado, directamente ou através de uma associação.
Custa-me engolir a facilidade com que nos auto-desculpamos, com que dizemos que aquele problema não é responsabilidade nossa, alguém o há-de resolver. E a consciência leve e livre com que seguimos em frente, sem hesitar nem pensar duas vezes no assunto.

Hoje apareceu-nos um gatinho de 2 meses no motor do carro. Já temos 2 gatos, nova adição não estava nos planos. Mas, dentre todas as possibilidades, nunca nos passou pela cabeça deixá-lo na rua. E ouvir gente dizer que o teria deixado lá, a rir, afinal nem gostam de gatos, o problema outro que o resolva, e saber que nem teriam perdido 2 minutos de sono, personifica instantaneamente muito do que está mal com esta sociedade.
Não sabemos se vamos ficar com ele. Para já está cá em casa, quente e alimentado. Se arranjarmos quem lhe dê aquilo que nós lhe daríamos, é possível que o deixemos ir – provavelmente seria o melhor para os nossos gatos, o nosso orçamento, a nossa casa. Mas se isso não acontecer, há-de cá ficar e ser feliz, que onde comem 2 comem 3.
Nem os problemas da sociedade existem no vácuo nem a sociedade é uma entidade estranha, distinta de cada um de nós, peças que a compõem. E, como tal, os seus problemas são também responsabilidade nossa. Era bom que nos lembrássemos disso de vez em quando.

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5 thoughts on “em cada português um pôncio pilatos

  1. Vespinha diz:

    Aconteceu-me isso perto da editora há umas duas semanas, e não foi a primeira vez. Olham sempre para mim como se fosse a maluquinha dos gatos… afinal, se estão no motor dos carros, so what? Felizmente desta vez arranjámos-lhe um dono no próprio dia, penso que vai ser uma gatinha feliz.

  2. DNC diz:

    Não podia concordar mais contigo, em tudo. Eu reciclo, eu dou a roupa que já não usamos a quem mais precisa, eu contribuo para as campanhas do Banco Alimentar e das associações que apoiam animais abandonados, eu sou sócia da Sociedade Protectora dos Animais e frequento os seus postos veterinários, eu dou uma esmola, e até comida ou mesmo um cigarro (sim, é um vício feio, bem sei…), a quem me pede… se mais não faço é porque não posso, mesmo…

    Há quase 3 meses, também encontrei um gatinho abandonado na rua. Tentei arranjar quem ficasse com ele, porque também já tinha dois, mas não consegui… por isso, ficou cá em casa, pois, como bem dizes, onde comem 2 comem 3. Mas este gatinho tem um problema, grave, numa pata, que na próxima terça feira vai ser amputada… e eu não faço ideia de quanto me vai custar a “brincadeira” e nem sequer estou preocupada com isso, é para o bem dele, para lhe dar qualidade de vida. Mas tenho a certeza que muito pouca gente se daria ao trabalho de fazer o mesmo que eu (e o meu marido, claro). E tenho pena, muita pena…

    O mundo seria um sítio bem melhor se todos fizessem um pouquinho mais do que aquilo que fazem…

  3. Just José diz:

    Se o gato for gordinho por favor não deixem chineses aproximar-se dele… (-:

    Agora a sério, acho que este seu post é de certa forma um apoio à Isabel Xoné, quando fala da carne… já agora eu acho que ela falou demais e escolheu exemplos demasiado “caseiros” mas penso que falava em empobrecer os da “classe” média-alta a que ela pertence. E quando falou de lavar os dentes com copo, a questão da poupança de água é muito importante e ninguém dos partidos mais “verdes” foi capaz de aproveitar para dizer que seim, era preciso poupar água… toda a gente gozou com a pobre mulher!

    Onde está a Causa Ecológica?! Salvar o Planeta e poupar recursos passou de moda?!

    • Mariana diz:

      Tinha de dizer: não é, de TODO, um apoio à Jonet.

      • Just José diz:

        Ah ok como vi os bifes pensei que fossem os da Jonet. 😛 Ainda não tinha lido o seu último post quando comentei este, agora já li a sua opinião sobre o caso Jonet.

        No entanto diga-se que se a Mariana apoiasse a senhora não teria nada de mal, não era caso para ir para a fogueira. Mas também sei (de outras discussões) que a Mariana não é “Maria vai com as outras” e não tem medo de ir “contra-corrente”, portanto não teria medo de a apoiar se assim pensasse.

        A questão preocupante neste caso, quanto a mim, é que a blogosfera “opinion leader” não está nas mãos das pessoas mais pobres, muito destes são informáticamente analfabetos e nem terão internet ou computadores, e os que conhecem a senhora e o seu trabalho, os que comem os alimentos do Banco Alimentar, não andam na blogosfera para a apoiar, por isso quem domina aqui rapidamente crucificou a senhora, numa teia de cumplicidades e influências, em que um diz mata e o outro diz esfola, num verdadeiro bullying por arrastão.

        Tudo por causa de umas declarações infelizes mas que foram propositadamente deturpadas… eu estava a ver em direto e se é verdade que a senhora monopolizou o debate e fala de uma forma que me estava a irritar e parece que está sob medicação ou em transe, percebi que ela disse “empobrecer” referindo-se a ela e aos que como ela não se preocupavam em poupar no dia-a-dia e a todos os que viviam do crédito e viviam para o “status”

        Mas não basta cortar, poupar, cortar: é preciso criar riqueza e emprego, poupar E crescer.

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