é inverno mas ando sempre cheia de calor

Levanto-me e penso no que vestir, está frio lá fora mas já sei o que me espera. Camadas camadas camadas e um casaco quando me lembro, está calor em casa e calor no hospital, raramente me lembro que tenho a rua entre os dois e depois a rua ao almoço se tiver tempo de vir cá fora e a rua entre o hospital e as consultas. Chego ao hospital e equilibro casaco e carteira numa mão, abro o cacifo com a outra (tão pequenina esta mudança mas tão grande cá em mim, cacifo no hospital, até o porta-chaves toca diferente), enfio lá dentro a carteira, tiro a bata o estetoscópio o caderno o estojo o bloco de notas e encafuo o casaco e o lenço e a camisola e se for preciso mais uma camisola. Enfio a bata, ocupo-lhe todos os bolsos, penduro o estetoscópio ao pescoço não porque dá estilo mas porque quando o levo no bolso não me lembro e ando aos encontrões a tudo e qualquer dia tenho o aparelho mais surdo que uma porta. Atravesso os corredores gelados do edifício velho (chamamos-lhe nós, clássico chama-lhe quem não gosta de dar os nomes às coisas) e entro nos serviços quentes quentes quentes e nas enfermarias ainda mais quentes mais quentes abafadas, o suor a escorrer-me pelas costas o cabelo a colar-se à nuca as quase tonturas as bochechas vermelhas cor de vinho (e nem levo barricas no bolso da bata). No regresso o percurso inverso, enfiam-se as camadas no corpo, as tralhas à pressa na carteira, a bata sem dobrar dentro do cacifo. Todos os dias o frio cá de fora a contrastar com o calor que se nos entranha nos ossos e aquela sensação de que os hospitais deste país andam a contribuir fortemente para o efeito de estufa.

Cá fora havia castanhas que nunca antes tinha havido, mas o negócio devia estar fraco e mudaram-se sem eu ter tido tempo de as provar. Uma vez foi quase quase, mas tinham acabado e ainda estavam quase a sair as seguintes quando chegou a minha boleia, tenho de ir disse eu ao senhor, fica para a próxima, sem saber que não haveria próxima, que a banca das castanhas com o Mickey e a Minnie não estaria lá dias depois.

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5 thoughts on “é inverno mas ando sempre cheia de calor

  1. São João diz:

    Estou no escritório há 2 horas com o AC ligado no quente e ainda não despi o casaco 😦

  2. Navajovsky diz:

    eheheh o sempre eterno drama dos estudantes de medicina que têm aulas no hospital: despir e vestir 500 vezes ao dia e, drama não menor, chegar com a devida antecedência para despir e organizar as coisas e estar na enfermaria às 08h30 da manhã. Eu estou no 5º ano e ainda é frequente que me corra mal.

  3. ainda hoje disse a mesma coisa! tenho quase duas roupas, uma para estar dentro do hospital, e outra para estar fora!

    e tirar café nas máquinas automáticas com um casaco e mais sei lá o quê de braçado? tirar carteira, tirar moedas, contar moedas, agarrar no café, ir mexendo o café. horror.

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