anti-histamínico para a alma

Não há muitas coisas que me tenham chateado no crescer – e as que há são imensamente inferiores à serenidade e paz de espírito que os anos me trouxeram, assim genericamente falando.

Mas há uma, que são várias, que me custa e que se faz sentir volta e meia. Resume-se na perda de inocência, talvez, mas é mais específico que isso. É uma percepção ampliada das pessoas que nos rodeiam. É percebermos que há pessoas à nossa volta que são muito diferentes das que pensávamos que elas eram quando nós éramos crianças e elas eram adultos. E percebemos agora melhor do que antes porque estamos mais atentos, porque sabemos ler melhor as pessoas, porque nos interessamos mais e porque nos escondem menos. E também, claro, porque as pessoas também envelhecem e mudam e frequentemente fazem-no para pior.

Custam-me as novas alergias que vou desenvolvendo a alguma gente. Custa-me a cegueira selectiva que é preciso escolher diariamente para conseguir lidar com certas pessoas. E custa-me querer distância, muito mais que abraços.

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3 thoughts on “anti-histamínico para a alma

  1. rita diz:

    Aconteceu-me o mesmo, tive muitas desilusões familiares ao crescer e custam-me, até porque não há maneira de contrariá-las, não posso dessaber o que sei nem desperceber o que percebi.

  2. Just José diz:

    Se “inocência”(?) era “cegueira” ou seja, interpretação errónea da realidade, então devemos estar felizes por termos crescido: é sempre melhor poder ver, mesmo que a paisagem não seja agradável. Quem não é “cego” tem sempre a tal opção de fechar os olhos voluntáriamente. mas aí é já escolha pessoal: se não o quisermos fazer poderemos optar por ser radicais, não compactuando com a hipocrisia alheia.

    De qualquer das formas acho que a nossa memória nos engana quando nos quer convencer que éramos uns anjinhos inocentes em crianças. Talvez também fossemos cegos seletivos nessa altura e, se assim foi, talvez não tenhamos mudado tanto quanto pensamos.

    “(…) Another revolutionary aspect of Freud was that for him, there was no longer such a thing as innocence. This was already anticipated by the “great shock of Schopenhauer”, who claimed that children are not innocent, but uncivilized and still un-human; this at a time when children were seen as epitomizing innocence, even Arcadia. For Freud, there were no innocent children; their will was simply untamed. In that sense, he abolished innocence.

    Freud’s revolutionary notion of the sexuality of children rocked bourgeois life. (…)”

    George L.Mosse – University of Wisconsin-Madison

  3. DNC diz:

    Se soubesses como me revejo nas tuas palavras… então a última frase é, para mim, apoteótica…

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