a criança, o cão e a rapidez de julgamento

Morreu uma criança. É mau? É terrível, para todos nós e particularmente para os pais. Mas o que me faz confusão no meio disto tudo é que, ao que parece, ninguém estava na divisão em que tudo se passou quando se passou, mas toda a gente já sabe que a culpa foi do cão. Não se sabe o que se passou. Os factos que há, por enquanto, são estes: uma criança morreu por traumatismo crânio encefálico. Parece que nem lacerações tinha – o que, convenhamos, é muito estranho em caso de ataque por um cão. Mas atenção – parece. Até haver relatório de autópsia, tudo o que por aí anda é diz-que-disse, com muito pouco de facto comprovado.

Eu não quero defender o cão. Não sou absolutamente contra o abate de cães perigosos, apesar de ser a favor de outras medidas antes dessa, que é definitiva e, como tal, deverá ser última. O que eu gostava era que se reunissem os factos antes de se passarem sentenças. Que se perceba se a criança foi, efectivamente atacada ou se apenas tropeçou no cão como poderia ter tropeçado num tapete ou num brinquedo – porque qualquer uma destas justificaria um traumatismo crânio-encefálico numa criança daquela idade. O que eu quero é perceber o que fazia aquela criança, tão pequena, sozinha num espaço onde dormia um cão de raça alegadamente perigosa. E que se averigue se isto tudo não foi uma forma de desculpar a negligência dos cuidadores desta criança, aproveitando para culpar um cão que, dizem os registos, o dono já tinha, mais do que uma vez, tentado entregar para abate – não por ser perigoso, mas porque já não o queria. Eu não quero defender o cão, mas também não quero que o culpem antes de saber exactamente o que se passou. Porque este cão me parece um bode expiatório perfeito para uma situação que poderá ser da mais pura negligência.

Já li muita coisa por aí e para a maioria não encontrei nas várias notícias (e li muitas) suporte factual. Muitos dos discursos que li por aí de condenação do animal vêm, parece-me, do medo. Do medo de que lhes aconteça o mesmo, do medo de não haver protecção legal em caso disso, do medo puro e simples e compreensível de se ser atacado por um cão. Mas o medo não pode tomar decisões, porque o medo não é racional.

Como disse, em última instância, não sou em absoluto contra o abate de cães perigosos. Corrijo: de cães comprovadamente perigosos. Eu ainda não sei se este é. Eu não o conheço e, mesmo que conhecesse, não sou especialista na área. O que eu sei é que ainda ninguém sabe ao certo se ESTA criança foi efectivamente atacada por ESTE cão. E isso, parece-me, é fundamental antes de se decidir abater o animal – seja ele de que raça for. Porque pode haver raças com propensão para o ataque (os doberman até piram, quando o cérebro cresce mais do que o crânio e fica atrofiado lá dentro), mas TODO o cão, como todo o gato, como todo o animal (e, dentro destes,  o ser humano) pode atacar alguém. Aqui a questão não devia ser a raça deste cão – devia ser ESTE cão, nestas circunstâncias, com esta criança. E devia sê-lo de forma imparcial, não porque cão e criança são iguais (eu sei que não são, ok?), mas porque é assim que se tomam decisões.

E, já agora, se não for pedir demais, também gostava que não reunissem os factos com base no JN ou no Correio da Manhã ou em qualquer outro pasquim de esquina, desses que já provaram vezes sem fim que estão muito mais interessados no número de vendas do que na exactidão e na ética jornalística.

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3 thoughts on “a criança, o cão e a rapidez de julgamento

  1. Tal e qual. Subscrevo inteiramente a sua opinião e digo mais… o próprio dono disse que já não queria o cão, portanto, acho que alguém que não queira o animal, não cuida dele da melhor forma…

  2. Tenho pensado nisso, nas circunstâncias deste trágico acidente. Nem quero falar sobre essas suspeitas porque, se forem injustas, são de uma crueldade atroz para os pais.

    A propósito, copio para aqui um texto roubado a um amigo, que ele escreveu no facebook:
    (mas acrescento um comentário prévio: um cão, tal como o que vem aqui descrito, é uma espécie de arma. Os adultos que deixam uma criança andar à solta e sem vigilância perto de “armas” são extremamente negligentes. A Cocó dizia que não se pode estar permanentemente a vigiar uma criança de 18 meses. Mas se ela tivesse em casa uma arma carregada, é óbvio que ou punha a arma num sítio que a criança não pudesse alcançar, ou vigiava a criança o tempo todo.)

    “A propósito do caso trágico da criança que morreu vítima de ferimentos provocados por um cão considerado de raça potencialmente perigosa o Daniel Oliveira publicou no Expresso um artigo explicando porque um cão que mata uma pessoa tem de ser abatido [http://expresso.sapo.pt/o-cao-que-matou-a-crianca-e-as-comparacoes-grotescas=f778636].

    Escreve o Daniel Oliveira: «Nenhum animal é abatido por ser “culpado” de nada. (…) Um animal doméstico, se se revelar perigoso para os humanos, não pode conviver com eles. É apenas disto que se trata e não de qualquer ato de justiça.»

    Prossegue depois para a crítica do texto da Petição contra o abate do cão “Zico” [http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2013N34295], denunciando o que traduz como o discurso de «muitos defensores mais radicais dos direitos dos animais» que «relativiza os direitos humanos».

    A petição em causa contém uma argumentação frágil na forma retórica que o Daniel Oliveira, como pessoa inteligente, desmonta com facilidade. E eu, que assinei a petição, também sei ver isso. Mas a questão de fundo é, para aqueles que a subscrevem, esta:

    >As circunstâncias que potenciaram este acidente são da única e exclusiva responsabilidade de pessoas adultas.

    Vale a pena enumerar algumas das ilegalidades presentes na circunstância em que este animal vivia: não estava esterilizado, não tinha registo nem seguro e não estavam reunidas condições adequadas para o seu alojamento em segurança. O cão, conforme tem sido divulgado nos jornais, vivia numa varanda atado por uma corda.
    Estamos a falar de um animal possante, com características que exigem um cuidado especial de exercício e sociabilização. E o que sabemos é que o animal que vivia preso, num espaço diminuto, não castrado, logo potencialmente mais agressivo, de orelhas cortadas – procedimento (mutilação) que era habitual nesta raça e que hoje é também considerado ilegal, fazendo pressupor desde logo uma postura da parte do “dono”.
    Acresce a tudo isto a circunstância da interacção não supervisionada de um cão, seja ele qual for e mais sensível ainda com animal possante e de raça manipulada (infelizmente), com uma criança – algo a todos os títulos inaceitável.

    A morte deste bebé é um facto trágico, terrível e lamentável. Mas o que está verdadeiramente em causa não é o “cão perigoso” mas algo muito recorrente no nosso país: donos perigosos e autoridades negligentes. É também sobre isso que a comunicação social devia incidir: porque é que tantos donos destes cães não cumprem a lei e porque é que muitas vezes as autoridades são negligentes e não as fazem cumprir, mesmo em casos identificados e denunciados de ameaças e maus comportamentos dos donos com cães potencialmente agressivos, sem que ninguém actue até que a desgraça finalmente aconteça.

    O caso do “Zico” é complexo. Depois deste facto trágico, deverá o cão ser eutanasiado devido ao risco potencial que representa para as pessoas? 40.000 portugueses juntaram-se à volta de uma petição pedindo que se pense noutra alternativa. Acima de tudo, estão a pedir que não se utilize a lei para redimir as verdadeiras culpas e responsabilidades por este flagelo – que é apenas mais uma face da nossa débil consciência sobre o bem estar animal – abatendo liminarmente a parte mais fraca, para alívio das consciências.”

  3. Vespinha diz:

    Ando há dois dias a pensar precisamente como tu… sem informação suficiente mas sempre com vontade de dizer alguma coisa. De facto, que provas há? E, quando as houver, o que provarão? Este é um caso bicudo, e trouxe-me uma enorme desilusão: ler que Daniel Oliveira pensa que qualquer vida (QUALQUER, até do ser mais abjeto) vale mais do que a de um animal…

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