das hipocrisias do nosso sistema de saúde

ou da diferença que fazem duas letrinhas apenas

Quando, em Abril, comecei a perder sangue e a suspeitar que a gravidez de então não ia evoluir, fui uma vez às urgências do hospital público da minha área de residência. Sem confirmarem nem desmentirem, que os médicos são gente que gosta pouco de se comprometer, discutimos o que se faria em caso de inviabilidade da gestação. Parece que nisto, como em tanta coisa, há filhos e enteados. Mas eu explico.

Se eu, na altura com 8 semanas de gestação, tivesse ido às mesmas urgências declarar a minha intenção de proceder a uma interrupção VOLUNTÁRIA da gravidez, tinham-me sido dados 3 dias para pensar, após os quais teria voltado lá e me teriam sido fornecidos comprimidos abortivos, para tratar do processo em casa. Era-me marcada uma consulta para acompanhamento x dias depois e lá me mandavam à minha vida, sem mais que uma recomendação para regressar à urgência em caso de hemorragia demasiado intensa (um conceito nada subjectivo, portanto).

No entanto, como eu, na altura com as mesmas 8 semanas de gestação, lá fui com uma gravidez não evolutiva, que implicava uma interrupção INVOLUNTÁRIA da gravidez (que é feita com os mesmos comprimidos abortivos), já não podia fazê-lo tranquila e sossegadamente de minha casa, tinha de ser internada.

Eu até vos explicava a diferença, além da vontade expressa de interromper vs. a obrigatoriedade de o fazer, mas sinceramente também não percebi. Parece que é protocolo, disseram-me. Eu esmiucei e acabaram por admitir que era para fazer um controlo melhor do risco hemorrágico e das dores. Ou seja, quem tem de interromper uma gravidez fá-lo sem dores e sem risco de hemorragia descontrolada, mas quem interrompe voluntariamente está entregue à sua sorte. E, como é protocolo, não há possibilidade de inverter os papéis (eu sei, eu tentei, porque sempre quis passar por tudo aquilo em casa, com o meu marido ao meu lado).

Se quisermos ser utilitaristas, podemos justificar esta postura como uma forma de contenção de custos – afinal, um procedimento é electivo e o outro é necessário. Podemos alegar que os contribuintes não têm obrigação de pagar o internamento, a analgesia e o controlo hemorrágico de uma mulher que se submeteu a um dado procedimento voluntariamente. Podemos argumentar muitas coisas, mas a mim, que ando a pensar nisto há quase 1 ano, vai continuar a soar-me a filha da putice. Não sei se é assim em todos os hospitais, mas no meu é. E não há nada, nada que devidamente o justifique.

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6 thoughts on “das hipocrisias do nosso sistema de saúde

  1. Navajovsky diz:

    Mandando assim completamente para o ar não poderá ser porque nos casos de interrupção involuntária há alguma patologia base na gravidez e essa patologia aumente os riscos do aborto? Sei lá, alterações da implantação e formação da placenta ou coisas que tais que comportem um maior risco de hemorragia? Mas mandado mesmo para o ar, não faço ideia.

    • Mariana diz:

      Acho que pode haver em alguns casos, sim. Mas assim sendo, fazia-se uma triagem e internavam-se só esses ou então internava-se toda a gente. E se houver alguma mulher a fazer IVG que tenha problemas não diagnosticados de coagulação? E se essa mulher que vai fazer IVG também tiver, coincidentemente, uma gravidez não evolutiva, com os mesmos problemas que referes?

  2. Anna Blue diz:

    Desconhecia essa diferença de tratamento e a ser assim é de facto uma grandessima filha da putice. Contudo, tenho uma amiga que teve uma gravidez não evolutiva e não ficou internada. Deram-lhe os comprimidos para fazer a expulsão e passou pelo processo em casa, voltando apenas ao hospital para verificar se estava tudo ok. Dualidade de critérios?
    Eu às 14 semanas tive perdas que me levaram de urgência ao hospital mais próximo e na altura o incompetente do médico que me atendeu nem sequer uma eco me fez para ver se havia descolamento da placenta. Disse-me apenas que era a Natureza a seguir o seu curso e mandou-me para casa. Nem sequer me examinou, nem me encaminhou para lado nenhum, baixa médica muito menos. Contenção de custos no seu melhor. Ou incompetência. Ou ambas.

    • Mariana diz:

      Como eu disse, Anna, pode ser diferente de hospital para hospital. Eu também fiz em casa, mas com comprimidos passados pela minha obstetra no privado. No público da minha área teria de lá ficar internada.

  3. Margarida diz:

    Não percebo. Em Lisboa são só internadas interrupcões de gravidez a partir das 10 semanas ou se houver alguma doença de base da mãe, independentemente se a interrupção é voluntária ou não. Beijinhos!

  4. Tita diz:

    Tive as duas!!

    Uma gravidez (a primeira) não evolutiva às 6 semanas. A trabalhar na altura em Coimbra dirigi-me à maternidade, onde nenhuma informação me foi dada, apenas me fizeram uma eco. Mandaram-me simplesmente de volta para casa sem qualquer medicamento ou conselho. Apenas me foi dito que se viesse a abortar o saberia pois iria ter uma hemorragia mais forte que a do período menstrual. Nada mais !!!!! (Não tive quase hemorragia e pensei que continuava grávida, até chegar às supostas 9 semanas … – mas esta seria toda mais uma história). Tipo, vai-te embora para casa e desenrasca-te!

    Alguns anos depois (já com 3 filhos de tenra idade nos braços) engravidei novamente – apesar de ter um DIU, que nem deslocado estava – mas não tinhamos condições para assumir uma 4ª criança. Passei pelo meu médico de família, igualmente com 6 semanas, que me fez uma carta para o serviço de obstetrícia do hospital da minha zona. Fui super bem atendida, tudo como deve ser e no dia da toma dos últimos medicamentos, que provocam a expulsão, internaram-me pelas 8h, só tendo tido alta no final da tarde, após verificação que tudo tinha corrido bem.

    Escusado será dizer, que contra toda a lógica, fui muito melhor atendida quando escolhi fazer uma IVG, do que quando a gravidez deixou de evoluir por ela própria.

    Quanto a ti, desejo-te as maiores felicidades!! Beijinhos!

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