Monthly Archives: Março 2013

dores de cabeça da pré-maternidade

A criança ainda está longe de chegar e as dores de cabeça já começaram.

Já escolhemos o carrinho que nos parece melhor para a topografia da nossa cidade, que tem muito paralelo e muita calçada portuguesa. E agora, compramos alcofa ou só o ovo? E compramos base isofix ou não vale a pena e o cinto chega? Ah, com o cinto não fica assim muito fixa, se calhar compramos base. E compramos base para o ovo ou uma universal que já dê para a cadeira que vier a seguir? E essa universal, dará para o carro da mãe? E para o do pai? O site diz que dá para os dois, os manuais dos carros confirmam mas se calhar é melhor irmos lá abaixo verificar. Ora porra, o da mãe diz que tem sistema isofix mas não tem, parece que era um extra gratuito mas que tinha de se requisitar e o dono anterior do carro não deve ter pedido. Então e agora? Trocar de carro não dá, dará para mandar instalar o sistema isofix? E desistir disto tudo e ir morar para o campo e andar com o puto sempre numa sling?

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constatações de procrastinadora

As boas da blogosfera não deviam poder tirar férias ao mesmo tempo.

(pensando nisso, as más também não, que em faltando-nos o pão para a alma, que não nos falte também o circo)

não é o fim nem o princípio do mundo, mas começa a ser um pouco tarde

Desde pequena que meço as coisas em termos do tempo que já passou e do que ainda falta passar. Quando vou de férias é como se o tempo se distribuísse numa subida e numa descida, como se estivesse a aumentar até meio e depois, quando já faltasse passar menos do que o que já tinha passado, começasse a diminuir e aí sim, começaria a aproximar-se o fim.

Recentemente apercebi-me que meço o tempo dessa forma com todos os prazos. E – não podia ser de outra forma – está a ser também assim com o prazo mais importante do ano. Caramba, 5 meses. Já falta passar menos tempo do que aquele que já passou e eu com praticamente tudo por fazer. Ainda não chegou a hora do pânico mas, como o tempo, já faltou mais.

disclaimer: não respondo pelas minhas hormonas pós-parto

Se há coisa que me mexe com os nervos é chamarem coitadinhos aos bebés. Não aos bebés doentes ou com cólicas ou cheios de fome ou, vá, com mães ou tias ou avós insuportáveis que passam os dias a apertar-lhes as bochechas – esses, coitadinhos, percebe-se. Irrita-me que chamem coitadinhos àqueles bebés sossegados, em paz, de fralda limpa e barriguinha cheia, como se coitadinho fosse sinónimo de pequenino. Apetece-me arrancar cabeças.

Ao meu, chamem-lhe muita coisa. Chamem-lhe bichinho, feijão, coisas feias como riquinho ou príncipe. Eu, desde que descobri que o puto tem o perímetro cefálico acima do normal para a idade, chamo-lhe cabeçudo. O primeiro que lhe chamar coitadinho vai ter de se haver com uma pós-grávida em processo de desintoxicação hormonal.

manifesto de maternidade

Eu até fazia um baby blog feshionista, mas o meu vai ser o puto mais off fashion das redondezas. Não temos padrões rococó, nem laços nem bordado inglês. Temos muito algodão, alguns bonecos, frases giras. Mas temos sobretudo roupa confortável, de material bom para a pele da criança mas barato, que para lhe vestir duas vezes não é preciso coisas a custar duas fortunas.

A minha criança poderá sujar-se desde que nasce até que deixe de querer. Rasgar os joelhos a jogar futebol, estourar as sapatilhas a subir às árvores, encher as camisolas de nódoas de fruta se sair à mãezinha. Não quer dizer que não ande giraço, já ali temos coisas bem catitas. E não é nada difícil resistir à tentação – nesta fase basta olhar para a etiqueta do preço, estimar o número de vezes que vai vestir e sair bem depressa da Chicco, da Lanidor e de outras em que só entrei brevemente, inebriada de hormonas e de pouca racionalidade.

Portanto não estejam à espera desse lado da coisa. Quando a criança nascer não prometo que não surjam por aqui algumas gracinhas – afinal, dizem (que eu ainda não sei), mãe é mãe. Mas de dias de grávida mal-disposta, como bem sabem, e de mãe mal-disposta (como saberão daqui a uns meses) continuará a ser um blog farto.

epicurismos de água na boca

Não gosto de quiche nem de esparregado nem de coisas com molhos de natas ou de leite ou de queijo. Não gosto de ovos moles nem de pão-de-ló nem dos doces conventuais que quase só me sabem a ovo. A maioria dos doces tradicionais portugueses é assim, com quilos de gemas porque as freiras precisavam de as aproveitar, depois de usarem as claras para engomar as partes brancas e duras dos seus hábitos. Gosto muito de comer mas pouco da doçaria portuguesa. Nunca fui mais bolos, sempre pendi para o salgado e não há nada como um bom rissol, com a massa fina e crocante, bem frita, e um recheio húmido e saboroso, com um bocadinho de chouriço a dar graça à carne. Nada dessas modernices dos rissóis de leitão, que pouco mais têm que o molho de pimenta (já disse que odeio pimenta?) ou da falcatrua que são os de camarão, quase só farinha e sopa de marisco e do dito, verdadeiramente, pouco ou nada.

Sou uma boa boca portuguesa. Feijoada à transmontana (ou à brasileira, não sou esquisita e gosto muito de farofa e couve mineira), rancho feito pelo meu pai, o cozido da minha mãe. Bacalhau na brasa com batatas a murro, bacalhau de quase todas as formas, menos com natas ou num sufflezinho, há lá formas mais vis de tratar o bacalhau? Gosto da comida portuguesa no espírito em que nasceu, rude e caseira, enfarta-brutos, coisa de puxar carroça. Nada das invenções pós-modernas com espumas, reduções e ares de coisa fina. Gosto das mãos calejadas que os fazem já de forma automática, sem pesos ou medidas, aquele vais vendo que me diz a minha avó quando me passa uma receita e que me deixa na obscura certeza de nunca nunca nunca a conseguir replicar. Gosto da sopa a saber a couves e feijão vermelho, a horas de fogo baixo e mãos que a mexem pouco, nunca mais do que o estritamente necessário. Gosto da nossa herança gastronómica como ela é, sem toques gourmet ou nomes de meio metro. Gosto das tascas, das tradições, das panelas de ferro que já conhecem os cantos ao caldo. E sem vontade de serem mais do que o que são, comida boa e simples, que faz parte de nós.

a síndrome JN

There are no facts anymore, kiddo. Only good or bad fiction.

Denny Crane, Boston Legal

homem prevenido

No meu frigorífico há, neste momento, 4 embalagens de manteiga. Acho que o meu marido tem medo que venha aí um cataclismo bovino qualquer que o deixe sem o seu pãozinho.