trezentos e tantos dias de saudade

Há um ano o mundo desabou. Há um ano partiste, mãe, por vontade tua e por tuas próprias mãos. Por vontade de partir, falta de vontade de ficar, falta de força falta de ar falta de vida. Não sei se há um ano decidiste que já não valia a pena ou se não foi uma decisão, se foi o escape possível. Ainda não sei e nunca hei-de saber, porque há um ano tu foste sem nos dizer nada e eu não sou capaz de decidir para mim a razão pela qual te acabaste.

Há um ano trezentos e sessenta e alguns dias, tantas horas tantos sonhos tanto nada.

 

com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça, com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. 

é fácil de entender quando queremos que o tempo nos faça fugir de alguma coisa, de um acontecimento, inicialmente contamos os dias, às vezes até as horas, e depois chegam as semanas triunfais e os largos meses e depois os didácticos anos. mas para chegarmos aí temos de sentir o tempo também de outro modo. perdemos alguém, e temos de superar o primeiro inverno a sós, e a primeira primavera e depois o primeiro verão, e o primeiro outono. e dentro disso, é preciso que superemos os nossos aniversários, tudo quanto dá direito a parabéns a você, as datas da relação, o natal, a mudança dos anos, até a época dos morangos, o magusto, as chuvas de molha tolos, o primeiro passo de um neto, o regresso de um satélite à terra, a queda de mais um avião, as notícias sobre o brasil, enfim, tudo. e também é preciso superar a primeira saída de carro a sós. o primeiro telefonema que não pode ser feito para aquela pessoa. a primeira viagem que fazemos sem a sua companhia. os lençóis que mudamos pela primeira vez. as janelas que abrimos. a sopa que preparamos para comermos sem mais ninguém. o telejornal que já não comentamos. um livro que se lê em absoluto silêncio.

o tempo guarda cápsulas indestrutíveis porque, por mais dias que se sucedam, sempre chegamos a um ponto onde voltamos atrás, a um início qualquer, para fazer pela primeira vez alguma coisa que nos vai dilacerar impiedosamente porque nessa cápsula se injecta também a nitidez do quanto amávamos quem perdemos, a nitidez do seu rosto, que por vezes se perde mas ressurge sempre nessas alturas, até o timbre da sua voz, chamando o nosso nome ou, mais cruel ainda, dizendo que nos ama com um riso incrível pelo qual nos havíamos justificado em mil ocasiões no mundo.

Valter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis

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12 thoughts on “trezentos e tantos dias de saudade

  1. Filipa diz:

    Abraço apertado, Mariana. 😦

  2. Vespinha diz:

    Fiquei sem palavras, partidas assim não deviam existir… Força, muita força. A minha mãe também já esteve à beira disso, mas vários milagres mudaram a sua vida…. só que os milagres nem sempre acontecem. Um abraço daqueles mesmo fortes.

  3. Um beijo muito muito grande.

  4. Anónimo diz:

    Só para dizer que te gosto tanto, tanto. Um abraço muito grande.

  5. Filipa diz:

    Abraço apertado.

  6. Izzie diz:

    (aquele anónimo ali em cima sou eu, Izzie)

  7. DNC diz:

    Faz de conta que estou aí a dar-te o abraço que daqui te mando, sim?

  8. Anónimo diz:

    Um abraço bem forte!

  9. Maria Bê diz:

    Aperta-se-me sempre o coraçãozinho quando penso em ti. Um abraço apertado, apertado, apertado…
    Sorriso sempre aqui!

  10. Queen of Hearts diz:

    Abraço sentido.

  11. Anónimo diz:

    Olá.
    Antes de mais parabéns pelo blog, que sigo há algum tempo, e pela gravidez.
    Ao ler este texto, surpreendentemente, fiquei com a sensação que conheço esta história e a “personagem” principal. Seja como for, quero apenas deixar-lhe um beijinho enorme e um abraço. O tempo não cura nada mas ensina-nos a viver com a ausência.
    Felicidades para si e para os seus.
    Marta

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