epicurismos de água na boca

Não gosto de quiche nem de esparregado nem de coisas com molhos de natas ou de leite ou de queijo. Não gosto de ovos moles nem de pão-de-ló nem dos doces conventuais que quase só me sabem a ovo. A maioria dos doces tradicionais portugueses é assim, com quilos de gemas porque as freiras precisavam de as aproveitar, depois de usarem as claras para engomar as partes brancas e duras dos seus hábitos. Gosto muito de comer mas pouco da doçaria portuguesa. Nunca fui mais bolos, sempre pendi para o salgado e não há nada como um bom rissol, com a massa fina e crocante, bem frita, e um recheio húmido e saboroso, com um bocadinho de chouriço a dar graça à carne. Nada dessas modernices dos rissóis de leitão, que pouco mais têm que o molho de pimenta (já disse que odeio pimenta?) ou da falcatrua que são os de camarão, quase só farinha e sopa de marisco e do dito, verdadeiramente, pouco ou nada.

Sou uma boa boca portuguesa. Feijoada à transmontana (ou à brasileira, não sou esquisita e gosto muito de farofa e couve mineira), rancho feito pelo meu pai, o cozido da minha mãe. Bacalhau na brasa com batatas a murro, bacalhau de quase todas as formas, menos com natas ou num sufflezinho, há lá formas mais vis de tratar o bacalhau? Gosto da comida portuguesa no espírito em que nasceu, rude e caseira, enfarta-brutos, coisa de puxar carroça. Nada das invenções pós-modernas com espumas, reduções e ares de coisa fina. Gosto das mãos calejadas que os fazem já de forma automática, sem pesos ou medidas, aquele vais vendo que me diz a minha avó quando me passa uma receita e que me deixa na obscura certeza de nunca nunca nunca a conseguir replicar. Gosto da sopa a saber a couves e feijão vermelho, a horas de fogo baixo e mãos que a mexem pouco, nunca mais do que o estritamente necessário. Gosto da nossa herança gastronómica como ela é, sem toques gourmet ou nomes de meio metro. Gosto das tascas, das tradições, das panelas de ferro que já conhecem os cantos ao caldo. E sem vontade de serem mais do que o que são, comida boa e simples, que faz parte de nós.

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8 thoughts on “epicurismos de água na boca

  1. Fizeste-me mesmo salivar!
    Adoro tudo o que adoras e mais o que não aprecias, um grande problema.
    Gostei imenso de saber o porquê do exagero de gemas dos doces conventuais.
    Portugal tem dessas iguarias!

  2. DNC diz:

    Então e aqui há uns 3 meses não soubeste avisar-me que não gostavas de bacalhau com natas??? 😦

    • Mariana diz:

      O teu estava óptimo, até repeti, se bem te lembras. É só uma das formas de que menos gosto, juro que não fiz sacrifício nenhum *

      • DNC diz:

        Se tivesses dito alguma coisa, tinha feito de outra forma… Mas se não foi sacrifício, fico menos triste 🙂

        (E, para a próxima, faço um ensopado de borrego, receita da minha mãe, que é bem português e bem saboroso.)

      • Mariana diz:

        Faz-me antes o teu bacalhau com natas outra vez (juro que estava bom, até pedi a receita! e ainda não ma deste), não como borrego 😉

      • DNC diz:

        Não mandei, pois não, esqueci-me… mas mando!

        É uma pena que não comas borrego… mas compreendo. Eu não como sardinhas e passo a vida a ouvir bocas, ainda para mais sendo da terra dela 😉

  3. What Elsa diz:

    Este podia ser o prefácio de um livro de comida tradicional portuguesa 🙂

    (em Guimarães há uma tasca que se chama “Taska do …”. adivinhem quem nunca lá vai entrar)

  4. Margarida diz:

    Hum… Ainda hoje me lembro daquele pequeno-almoço fantástico que me fizeste uma vez quando fui aí a casa! 🙂

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