Monthly Archives: Maio 2013

dúvidas existenciais de sexta à noite

Não sei se no meu prédio há um bebé com um choro muito aflitivo ou uma senhora que geme muito fininho.

pela nossa saúde

Ora, imaginem que são gestores de um grande hospital. Eu sei, eu sei, deve ser uma canseira, mas façam lá a vontade à grávida. E agora imaginem que um dos vossos, sei lá, neurocirurgiões vos falava de uma técnica nova, revolucionária, que se está a desenvolver lá fora e que vos permitiria operar sem abrir a cabeça (logo, com menor probabilidade de sequelas e complicações) em menos tempo (sabem lá vocês o preço de 1 minuto de bloco operatório, só o bloco, sem pessoal…), despachar as pessoas mais cedo para casa (toda a gente sabe que os doentes são uns chatos) e, feitas as contas, poupar uma pipa de massa. O que é que vocês, gestores inteligentes e competentes, fariam? Ora, eu cá não sei bem, mas acho que pegar nesse médico e mandá-lo fazer uma formação lá fora para poder trazer a técnica para cá era um bom investimento. Era, não era? Pooooois. E o que é que os senhores gestores dos nossos hospitais fazem? Não só não os mandam lá para fora com tudo pago (estamos a falar de formações de 2, 3 semanas, nada de extraordinário), como não lhes dão ajudas de custo nem sequer tempo de férias para o fazer. Se um médico quer aprender uma técnica nova, que poderá ser muito útil e rentável para o hospital, esse hospital obriga-o a tirar uma licença sem vencimento para o fazer. E muitas vezes nem sequer lha aprova. Excelente gestão, não vos parece?

Agora façam lá outro suponhamos. Imaginem que temos um tratamento para um cancro qualquer que custa x por pessoa. Agora imaginem que esse tratamento só é verdadeiramente eficaz nos, vá, 30% dos casos que têm a mutação genética 123. Chatice do caraças, não há como identificar esses casos e, portanto, na via das dúvidas, dá-se o tratamento x a todos os doentes, mesmo que se gaste uma pipa de massa. Até aqui tudo bem. Agora imaginem que alguém desenvolvia um teste que permitia identificar os doentes com a tal mutação 123. E imaginem que esse teste custa 2 vezes x, mas que permitiria tratar só os 30% dos casos que efectivamente iriam beneficiar do tratamento. Pronto, fica caro fazer o teste a toda a gente, mas poupava-se muitos x dos 70% que se ia tratar com outra coisa, que por acaso até é mais barata. O que é que vocês, gestores que pensam a longo prazo, fariam? É que o que se fazia até há pouco tempo por cá era ignorar o tal do teste e continuar a fazer o tratamento x a todos os doentes, mesmo que, ao fim do ano, tratar todos os doentes ficasse quase o dobro do que ficaria testar todos os doentes e tratar só os tais 30%.

E é esta a gestão que vamos tendo na nossa saúde – e nem vamos entrar pela coisa das luvas mais baratas que depois rasgam só de lá enfiar os dedos e obrigam os médicos a usar 2 ou 3 pares, perdendo em sensibilidade e disparando em custos. Ou daquele director de hospital do interior que no primeiro ano em que lá esteve fez baixar significativamente os custos com cirurgias de prótese da anca porque proibiu que se fizesse mais do que uma por mês. A maior parte das listas de espera que temos não são por falta de tempo, são por má gestão e contenção de custos. E por aquela razão que também nos dá maus governos: ninguém pensa a longo prazo, ninguém olha para daqui a 5, 10 anos. Andam todos preocupados só com o seu umbigo e o seu mandato, quem vier a seguir que apanhe os cacos e arranje maneira de repor a louça.

não, ainda não choro com os anúncios dos detergentes

E lido o que escrevi ontem, constato que as hormonas tomaram conta de mim. Na proximidade das 31 semanas estamos a entrar na fase deslumbradinha da gravidez, ainda sem olhares bovinos ou de nossa senhora, mas a pensar que isto da barriga é capaz de ainda deixar saudades. Logo agora que os neurónios me fazem tanta falta.

deixa-me fechar o mundo lá fora

Apetecia-me fechar o mundo lá fora, esquecer o resto dos trabalhos, os exames, o fim do semestre, dedicar-me só a este sentir-te, a fazer-te o ninho, a dar-te as boas vindas à nossa vida, às vidas que vens mudar para sempre, para melhor e para pior ao mesmo tempo, esperemos que para melhor no fim de feitas as contas. Porque não há razões racionais para te querer, como perguntava a São João, não há racionalidade para abdicar desta paz de espírito arduamente conquistada, deste saber que é por aqui que vamos e que queremos ir, deste amor a dois tão sereno e equilibrado, tão meu e dele. Desta liberdade de partir e chegar e ir e ficar ao sabor da vontade. Mas aquilo que vou aprendendo é que não importa que não haja razões, querer-te é razão que chegue, sentir-te chegar é toda a razão.

Apetecia-me ficar cá dentro a amadurecer esta calma recém-encontrada, esta coisa de ter vontade de abdicar do controlo da cesariana e da indução e ficar só à espera que venhas quando quiseres vir. Eu, com o meu limiar da dor tão baixinho, as minhas doses anestésicas de cavalo, sem medo de te ter como a natureza desenhou. Sem perder o medo, mas um medo paradoxal, um medo racional por saber tanto sobre tudo o que pode correr mal. Porque o medo das entranhas esse tem-se esvaído por mim afora, sem eu dar por ele.

Não tens quarto ainda, não tens cama, não tens lençóis nem banheira nem fraldas. Mas tens já muito amor à tua espera, muita vontade de que venhas e nos vires o mundo ao contrário.

a iniciar modo de pânico em 3… 2… 1…

Ora, tenho 8 exames – 8! – num mês. E ainda me falta comprar o berço, a banheira, lençóis fraldas e montes de tralhas afins. Será que ainda vou a tempo de renegociar isto dos 9 meses lá para os 10, 11?

a gerência desculpa-se mas a gerência não tem culpa

Pois que parece que o wordpress dá anúncios, mesmo sem me perguntar se estou interessada. Não se sintam enganados, juro que não ganho um tusto com o blog. E peço desde já desculpa pelos anúncios, apesar de ser alheio e contra a minha vontade, que se vocês forem como eu odeiam anúncios nos blogues. Espero que ao menos não sejam muito chatos nem vos incomodem as vistinhas. Agradecida.

embirranços de segunda-feira à noite

Miga em vez de amiga. Migas são aquela coisa boa de pão e verdes e feijões que eu comi no domingo num almoço maravilhoso. É que nem sequer poupa assim tanto trabalho, pá, é só menos um a! Então se for migaaaaa numa pessoa com mais de 5 anos é logo razão para puxar da caçadeira.

Eu sou do Benfica porque o meu avô era do Benfica. O meu avô, que durante o pouco tempo que cá esteve depois do meu nascimento era, parece, das minhas pessoas favoritas do mundo. O meu avô, que tinha em mim, também, uma das suas (quase) pessoas preferidas.

Contava a minha mãe que o meu avô era exigente e até um pouco severo, mas não comigo. Que me sentava no joelho e me dava do jantar dele, quando chegava tarde, a minha ceia e o jantar dele ali, juntos. O meu avô que se deixava desarmar pela neta desbocada, que dizia o que queria e sabia todos os palavrões desde que aprendeu a falar, fruto de um estranho passatempo da tia. Que quase se engasgava com as minhas saídas, entre o engolir a comida e a gargalhada. O meu avô e o trinaranjus de maçã, o escritório arejado, o anel de pedra vermelha, o carro cor de vinho e a águia na prateleira. O meu avô que partiu tão de repente.

Lembro-me pouco do meu avô. Quase nada, o pouco das fotografias e uns fiapos de memória perdidos e desgarrados. Não lhe sei o cheiro, não lhe sei o riso. Sei o pouco que me contam, mais nada.

E posso não saber o nome dos jogadores, não conhecer as tácticas, as tricas, os debates acesos de segunda de manhã. Posso não ter paciência para todos os 90 minutos de todos os jogos, posso nem ter opinião, muitas vezes. Mas não posso, não poderei nunca, mudar de clube. Porque eu não sou do Benfica por escolha. Sou-o por herança, por coração. É a única coisa que tenho do meu avô, isso e a vaga memória do seu sorriso.