pela nossa saúde

Ora, imaginem que são gestores de um grande hospital. Eu sei, eu sei, deve ser uma canseira, mas façam lá a vontade à grávida. E agora imaginem que um dos vossos, sei lá, neurocirurgiões vos falava de uma técnica nova, revolucionária, que se está a desenvolver lá fora e que vos permitiria operar sem abrir a cabeça (logo, com menor probabilidade de sequelas e complicações) em menos tempo (sabem lá vocês o preço de 1 minuto de bloco operatório, só o bloco, sem pessoal…), despachar as pessoas mais cedo para casa (toda a gente sabe que os doentes são uns chatos) e, feitas as contas, poupar uma pipa de massa. O que é que vocês, gestores inteligentes e competentes, fariam? Ora, eu cá não sei bem, mas acho que pegar nesse médico e mandá-lo fazer uma formação lá fora para poder trazer a técnica para cá era um bom investimento. Era, não era? Pooooois. E o que é que os senhores gestores dos nossos hospitais fazem? Não só não os mandam lá para fora com tudo pago (estamos a falar de formações de 2, 3 semanas, nada de extraordinário), como não lhes dão ajudas de custo nem sequer tempo de férias para o fazer. Se um médico quer aprender uma técnica nova, que poderá ser muito útil e rentável para o hospital, esse hospital obriga-o a tirar uma licença sem vencimento para o fazer. E muitas vezes nem sequer lha aprova. Excelente gestão, não vos parece?

Agora façam lá outro suponhamos. Imaginem que temos um tratamento para um cancro qualquer que custa x por pessoa. Agora imaginem que esse tratamento só é verdadeiramente eficaz nos, vá, 30% dos casos que têm a mutação genética 123. Chatice do caraças, não há como identificar esses casos e, portanto, na via das dúvidas, dá-se o tratamento x a todos os doentes, mesmo que se gaste uma pipa de massa. Até aqui tudo bem. Agora imaginem que alguém desenvolvia um teste que permitia identificar os doentes com a tal mutação 123. E imaginem que esse teste custa 2 vezes x, mas que permitiria tratar só os 30% dos casos que efectivamente iriam beneficiar do tratamento. Pronto, fica caro fazer o teste a toda a gente, mas poupava-se muitos x dos 70% que se ia tratar com outra coisa, que por acaso até é mais barata. O que é que vocês, gestores que pensam a longo prazo, fariam? É que o que se fazia até há pouco tempo por cá era ignorar o tal do teste e continuar a fazer o tratamento x a todos os doentes, mesmo que, ao fim do ano, tratar todos os doentes ficasse quase o dobro do que ficaria testar todos os doentes e tratar só os tais 30%.

E é esta a gestão que vamos tendo na nossa saúde – e nem vamos entrar pela coisa das luvas mais baratas que depois rasgam só de lá enfiar os dedos e obrigam os médicos a usar 2 ou 3 pares, perdendo em sensibilidade e disparando em custos. Ou daquele director de hospital do interior que no primeiro ano em que lá esteve fez baixar significativamente os custos com cirurgias de prótese da anca porque proibiu que se fizesse mais do que uma por mês. A maior parte das listas de espera que temos não são por falta de tempo, são por má gestão e contenção de custos. E por aquela razão que também nos dá maus governos: ninguém pensa a longo prazo, ninguém olha para daqui a 5, 10 anos. Andam todos preocupados só com o seu umbigo e o seu mandato, quem vier a seguir que apanhe os cacos e arranje maneira de repor a louça.

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7 thoughts on “pela nossa saúde

  1. Izzie diz:

    Aimêdês que me deixaste doente :/ E queixo-me eu de lá na taberna não usarem os versos das folhas (só eu, porque uma folha é um dedo de uma árvore).
    Chiça penico, esse médico ia fazer a formação com viagem e hotel pago (***, que também não sou maluques), e em tempo de serviço pago, quais férias. Isso é trabalho. Depois quando voltasse ia dar formação, para rentabilizar, ora. Um gestor a sério sabe fazer contas para calcular em quanto tempo se amortizava o investimento, e o mesmo é válido para os testes de ADN.

    Quanto ao resto, tenho um afim que é hematologista, e falava em agulhas de punção que quebravam, dentro do doente – a das luvas que rasgam e pensos que não colam também já ouvi. ‘Tás a ver porque tenho medo de picas? Pica aqui a ver se eu deixo.

  2. Smelly Cat diz:

    Realmente, há um completo desinvestimento na área da saúde. Acho que, em vez de tentarem resolver os problemas, limitam-se a varrê-los para baixo do tapete. E, depois, há situações que, de tão ridículas, chegam a ser caricatas, como foi aquele caso nos Açores em que as cirurgias foram canceladas porque quase não havia luvas no hospital e estavam a guardar as que restavam para as emergências. Houve um senhor, que viu a sua operação cancelada, que foi à farmácia comprar uma caixa de luvas e entregou-a no hospital, para mostrar o ridículo da situação…

  3. a.i. diz:

    Eu com a minha tendência para transpor ao caso concreto,só me alembra as meninas do meu curso (direito) que foram a correr fazer a pós grad nessa coisa da gestão dos hospitais porque o salário paga bem. Espera, não foram só as do meu curso, foram também as de “jornalismo de jardinagem”.

    E do que conheço dessas meninas, não são propriamente pessoas preocupadas com bem-estar alheio…

  4. Anónimo diz:

    Ainda há aquele tipo, recém chegado a um hospital nacional para o gerir, que o primeiro comentário que fez após ler o relatório de custos, disse que se tinha de cortar os custos de “Solução de 0,9% de NACLE” (sim, lido mesmo assim, nacle), que era estapafúrdia a quantia gasta nisso, não podia ser assim tão necessário.
    Sim, o senhor nem sabia o que era NaCl

    • Mariana diz:

      Hmmm… quem é você que eu já ouvi essa história? Só não era bem assim. Cortar no nacle 1000 porque o nacle 100 era MUITO mais barato e ele não percebia por que é que se andava a usar nacle 1000 nos blocos quando o nacle 100 das enfermarias era TÃO mais barato. Pois era, era, claro. Esqueceu-se foi de se informar: um eram 1000mL de NaCl, o outro 100mL.

  5. Goldfish diz:

    Não digas essas coisas que uma pessoa está prestes a parir e isso tem de ser feito num hospital – público, um desses com gestores tão giros que descreves, que aqui a maluca acha que no SNS fica muito mais bem servida que no privado.

    • Mariana diz:

      Oh não estejas assim que eu, não foram aquelas coisas de o pai poder estar mais presente e do conforto e da privacidade e assim, também já ando a pensar que devia ir parir ao público. Só que o público a que pertenço é tão mauzinho em termos obstétricos que me passam logo as ideias.
      Mas eu acredito muito no SNS e quero muito fazer parte dele. Só acho que precisamos de gente mais qualificada a geri-lo, para não continuarmos a vê-lo esvaziar-se dos profissionais competentes que lá trabalham, por falta de condições ou de valorização.

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