Monthly Archives: Junho 2013

grávidas blogosféricas em desespero

Sabes Amália, a mãe já não quer brincar mais às grávidas. A mãe quer o corpo dela de volta. principalmente os pés que costumavam ser tão esguios e agora parecem uns presuntos esquisitos pelos quais não tenho qualquer espécie de afinidade. A mãe quer voltar a ter tornozelos e conseguir sair de casa sem achar que vai morrer. Amália lamento mas isto é uma ordem de despejo. Por isso é bom que comeces a descer (esta barriga tão subida já está a deixar-me nervosa, pergunto-me se serás como eu e planeias nascer às 42 semanas – é que nem penses) porque tens aqui um mundo incrível à tua espera e montes de gente que te quer conhecer. E brinquedos e livros. E um cão. Vês o que estás a perder? A mãe precisa de comer carne de vaca em sangue, o bolo de chantilly e morangos do Fruta Almeidas, de fumar mais do que dois cigarros por dia, de deixar de ter dores em tudo quanto são ligamentos, desde os pulsos aos tornozelos. A mãe precisa de dormir de barriga para cima e de não perder o fôlego só porque falou um bocadinho mais de seguida e para isso é necessário que tu saias para que os pulmões voltem à sua posição original, percebes? A mãe precisa de beber álcool, imagina tu, coisa que nem costumo fazer muito. É para veres o meu desespero.

 

Troque-se Amália por Gil e podíamos ter a mesma conversa. Leididi, se funcionar avisa, que começo já a redigir a ordem de despejo do meu.

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discos pedidos

Hoje alegremente se jantariam conquilhas e chouriço assado, acompanhado de pão e broa e um branco bem gelado, no larguinho de Cacela-a-Velha, depois de um dia de molho na Fábrica. Alternativamente também já seríamos felizes com um arroz de carne de panela de pressão, com um tinto do Douro e um mar de estrelas no céu da nossa serra.

Em vez disso, temos neurolépticos e antidepressivos e mais uma série deles para empinar. Correr por gosto é melhor do que contrariada, mas às vezes cansa tanto.

quem sabe sabe, quem não sabe bate palmas

Saber fazer bem uma coisa não implica saber fazer bem outra coisa que é muito muito parecida mas diferente. Lá porque eu faço um bolo de iogurte que é um espectáculo não significa que seja capaz de fazer um bolo complexo, cheio de cremes e camadas, para um público alérgico a glúten, ovos e lacticínios. São coisas da mesma família mas entre elas há uma escalada de complexidade.

A Women’s Secret, que faz um bolo de iogurte jeitosinho, achou que sim senhora, era altura de fazer bolos para diabéticos celíacos e lançou uma linha de recém-mamã. Boa, pensámos todas as grávidas jovens do país, vamos encontrar coisas práticas mas bonitas para aqueles tempos em que temos de andar sempre de mamas de fora, quais fornecedoras da lactogal. Mentira. Porque os criativos da Women’s Secret nunca viram uma grávida na vida, nem sabem de que é que uma grávida precisa. As roupas são só ligeiramente maiores que os tamanhos habituais (porque uma recém-mamã é uma pessoa com mamas e barriga igualinhas às do resto da população, apenas um bocado inchadota). As camisas não têm botões e as de alças são tão decotadas que nenhuma mama cheia de leite lá caberia bem aconchegada – e se é verdade que as ditas andam em alta rotação, também não vamos exagerar. As calças têm elásticos iguais às outras, coisa muito prática para quem faça uma cesariana, já se vê. E podia continuar, não fosse ter desistido e nem ter ido à secção dos soutiens de amamentação – deviam ser espartilhados e cheios de renda para arranhar bem os mamilos gretados.

o subconsciente terá ouvidos como as paredes?

Sabes que a gravidez é um mundo à parte quando já engordaste 639 quilos, te sentes anafada pesadíssima paquidérmica e a médica continua a dizer que o peso está muito bem.

pick up the pieces and move on

Os filmes e os livros dizem todos que crescer dói. Sempre achei que sim, que doía, que era normal doer. Até que encontrei o meu lugar no mundo e deixou de ser assim. E eu deixei de acreditar que sim, que doer é normal.

Há dias que doem. Dias em que quem já cá não está nos faz mais falta que respirar. Dias em que olhamos para trás e remoemos nas asneiras que gostaríamos de não ter feito, em que pensamos no que andamos a fazer e não devíamos e no que devíamos andar a fazer e não andamos. Mas, feitas as contas, noves fora nada, o saldo deve ser sempre positivo. E se não é então devemos fazer alguma coisa para mudar.

Era nisto que eu acreditava, se calhar por nunca ter tido grandes dificuldades na vida – a maioria das minhas batalhas foram pequenas e fáceis. Mas apesar disso nunca fui verdadeiramente feliz até alguns anos depois dos 20. Fazer 30 anos angustiou-me muito menos que fazer 20 ou 25, porque aos 30 anos eu sabia, finalmente, quem era e para onde ia. O como ia-se fazendo, com vontade todos os dias.

Mas, de vez em quando, há coisas que se partem dentro de nós. Coisas pelas quais lutamos e das quais temos de desistir, não porque deixemos de as querer, mas porque é preciso aceitar que nunca vão ser como queríamos. Lutar, lutar sempre, cansa. E às vezes é preciso admitir que não vale a pena remar contra aquela maré, ceder, ajustar as expectativas. Custa muito, mas deve fazer parte da tal dor de crescer de que sempre ouvi falar e na qual tinha deixado de acreditar.

se um puto nasce e não está lá ninguém para ver

Se o meu filho fosse muito do contra – e conhecendo-lhe pai e mãe é bem provável que seja – escolheria esta semana para nascer. Não só não ia nascer onde nós planeámos, como ia aproveitar que nenhum dos avós está no país para fazer uma entrada perfeitamente anarco-triunfal.

mas há quem ande mais perdido do que eu

Não sei o que é que instalaram no meu blog nos últimos tempos, mas todo o spam que me chega é de sítios para encontrar o prom dress perfeito. Deviam era estar a bater à porta da Izzie.

perdida no féshionismo

Confesso que não percebo a moda grávida-prenda, com uma fitinha e um grande laço à volta da barriga. Ora, uma prenda está mesmo a pedir “desembrulha-me”, o que não deve ser o caso, pois não? É que se não é esse o propósito ainda percebo menos. Antes uma seta de néon a piscar ou um cartaz a dizer “mãe, estou aqui!”.