o medo é um bicho de muitas cabeças

Quando estamos grávidas toda a gente é especialista no assunto e até fazem fila para nos contar as piores histórias que aconteceram à irmã da prima do vizinho da colega. Eu não sabia que o medo é um bicho poderoso e que toma conta da nossa racionalidade, da nossa inteligência e nos vira do avesso. Ou antes, sabia racionalmente, mas emocionalmente nunca me tinha batido tão forte.

Andei até há uma semana a tentar decidir se queria fazer parto natural ou cesariana. Melhor, andei uns meses a adiar pensar nisso, sempre com imagens terríveis à espreita, de crianças com paralisia cerebral ou mulheres com prolapso uterino ou incontinência dos esfíncteres. O medo é uma ferramenta poderosa e toda a minha racionalidade se foi com duas ou três histórias insistentemente contadas e não havia quem, com a sua também sábia racionalidade, me trouxesse de volta à terra.

Um dia fez-se-me uma luz. Espera lá, se TODA a gente com quem eu falei da área da saúde me disse que o parto natural é melhor – mais, se as várias pessoas da área da saúde que já passaram por isso escolheram, para si, o parto natural, então que raio de cabala é que tu achas que existe, minha idiota, para aquelas outras duas ou três pessoas saberem o segredo que faz do parto natural a fonte de todos os males do mundo? E pronto, acalmei. Ainda li mais meia dúzia de pareceres da OMS, artigos científicos e cenas assim (que o medo é teimoso e difícil de convencer) e decidi.

Até ontem, quando a médica me disse ah, a criança é grande, vai ter de nascer por cima. E eu tudo bem! Eu, que sempre fui teimosa e de opiniões e posições fortes. Para me darem a volta tinham de me provar, por A mais B e com prova dos 9, que o vosso lado estava mais certo que o meu. Mas de há uns tempos para cá essa assertividade desapareceu. Não sei se é das hormonas, das mudanças todas que aconteceram na minha vida no último ano e meio, sei que desapareceu sem eu dar por ela. E portanto aceitei, marquei na agenda a data provável da cesariana e vim embora.

Hoje foi a primeira aula de preparação para o parto (aquele que, desde ontem, eu já não ia fazer). E aquilo que lá ouvi fez tanto, mas tanto sentido para mim que eu voltei à minha certeza do dia anterior – é isto que eu quero, é isto o melhor para mim e para o meu filho.

Nós já tínhamos sentido que a médica era muito fã de cesarianas e que tentava puxar para esse lado à mínima desculpa. A enfermeira confirmou-nos isso, aquela médica, por conveniência de horários de uns sítios e de outros, manda quase toda a gente para cesariana electiva. Eu não digo que não faça cesariana – desde que haja uma razão médica para tal. Por conveniência e preferência da médica não. E também não venham com histórias de induções, que com o medo nunca lhe dão tempo suficiente para a coisa evoluir e acaba quase tudo em cesariana na mesma (e se é para isso, faça-se cesariana à partida).

E com isto, a 8 semanas do fim, parece que vou comprar uma disputa com a minha obstetra, que é um stress extra que eu dispensava nesta fase. Em última instância, e se tiver mesmo de ser, mudo de médica. A minha decisão está finalmente tomada e com ela uma paz de espírito que ainda não tinha sentido, relativamente a este assunto. E daqui até ao nascimento da criança só aceito opiniões e troca de experiências quando eu as solicitar ou as considerar medicamente relevantes – tudo o resto ficará para depois. Foi um percurso longo e difícil vencer este medo, não vou deixar que ele tome conta de mim outra vez.

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11 thoughts on “o medo é um bicho de muitas cabeças

  1. Izzie diz:

    Primeiros, acho de muito mau gosto que se conte histórias de terror, sobre partos que correram mal, a uma mulher grávida. Segundos, acho que se deve fazer um esforço para ouvir os profissionais, investigar racionalmente como fizeste, e principalmente ouvir o conselho do médico pessoal. Se o médico obstetra marca cesarianas por conveniência, não é um médico, é um comerciante. Contra mim falo, já escolhi realizar uma cirurgia com um comerciante, mas de forma racionalmente assumida – o tipo era mesmo bom e não quereria/arriscaria processos por má prática, e se eu conheço quem tenha operado os óios e tenha tido sequelas chatas.
    Dito isto, compra a guerra, e ainda estás a tempo de mudar de médico e hospital. A minha cunhada fez isso, na época em que a MAC era uma vacaria (depois foi altamente intervencionada e está muito bem). Já agora, não conta como estatística, mas os meus 3 sobrinhos nasceram de parto natural, e olha que não têm problema nenhum. O mais pequeno foi para o aquário de prevenção, porque nasceu um bocadinho mais cedo, de resto, tudo supimpa.
    Força aí, e não cedas ao medo, que é a pior forma de nos empurrar para uma decisão 🙂

  2. Maria Bê diz:

    Querida Mariana,
    E porque não vais ouvir uma segunda opinião sobre o tamanho do Gil e o tipo de parto mais adequado a ambos?
    Eu tenho uma opinião muito incomum quanto a obstetras: who cares who picks up the kid just as long as it’s not dropped. Quanto ao meet & greet do puto, também aqui tenho uma opinião e uma experiência que, se quiseres ouvir alguém do relax, tudo se faz mas venham as drogas, sou a tua gaja. Que, aliás, sou mesmo.
    Sorriso!

  3. Ana Sofia diz:

    Post muito lúcido. A tua melhor telha de grávida. Que corra tudo bem 🙂

  4. eh, pá, que chatice que já fechou o guichet dos conselhos! 😉
    Caso o guichet das informações ainda esteja aberto, cá vão duas:
    – na Holanda o normal é ter os filhos em casa – parto humanizado, e tal (e, agora que falas nesse medo português, percebi melhor a minha reacção de repulsa a essa ideia)
    – acho estranho haver tantas cesarianas em Portugal, e pior ainda: com hora marcada. Na Alemanha, vi que há um enorme cuidado de acompanhamento, para ter a certeza que o bebé está bem, mas quer-se um parto o mais natural possível.

    Entretanto, vai-te preparando: depois dos médicos obstretras, é a vez dos pediatras… 😉
    (aceitas histórias horrorosas de pediatras que usam o seu poder para impor determinadas opções às mães? tipo “deixe de trabalhar, minha senhora, o lugar da mãe é em casa”)

  5. Ana Rita diz:

    Em principio farei uma cesariana por opção, o bicho papão, no meu caso, não há meio de arredar pé, e para não me martirizar decidi aceitar que tenho este calcanhar de Aquiles e pronto. Vencer os medos sim, às vezes há um ou outro que não se vence, que se lixe! 🙂 No entanto, quis responder a este post porque sei separar a minha realidade pessoal e faz-me todo o sentido esse percurso de racionalização. Pode correr mal ou bem em qualquer circunstância, e se os profissionais insistem que é a melhor opção, é porque é. O mais importante é ficarmos mesmo em paz de espírito. O que não concebo é ainda existirem médicos que comercializam cesarianas e que jogam com as inseguranças das mães para seu próprio benefício. Tive a oportunidade de verificar que não é o caso da minha médica. Para mim é importante ela respeitar a minha decisão, o que fez de imediato sem moralismos, mas também é importante saber que ela tem a ética suficiente para não me impingir nada.

  6. Filipa diz:

    Agora já não posso dar-te mais pormenores porque não posso perguntar à minha mãe, e já foi há muitos anos e já não deve contar nada, mas só a título de curiosidade: eu e os meus três irmãos fomos todos partos induzidos e todos partos normais.

  7. Patricia diz:

    Pois comigo aconteceu o mesmo: graças às aula de preparação para o parto ( que também não ia fazer 😉 ) fiquei bem mais alerta para certas questões do parto. Se até à data a minha postura era :” confio nos médicos, aceitarei tudo o que me disserem e farei tudo sem questionar” agora já não é bem assim 🙂 aprendi a bombardear enfermeiras com perguntas e a não ter receio de parecer tola:)

  8. Ana Sofia diz:

    Eu queria tanto ter um parto natural e tinha tanta aversão às cesarianas que na noite anterior à indução (coisa com a qual eu tb não concordo) subi e desci os 8 andares do meu prédio 2 vezes! Resultado: entrei em trabalho de parto nessa noite… :):):)

    • Mariana diz:

      É mais ou menos o que estou a planear fazer. Isso e todas as outras medidas de acelerar o trabalho de parto, recomendadas pelas parteiras, a partir das 37 semanas 😉

  9. Queen of Hearts diz:

    No meu caso, também fui contra a predisposição do meu médico, que por ele tirava o meu puto de quase 4 kgs pela janela, em vez de deixar o rapaz sair pela porta à vontade dele. A informação que reuni e o meu instinto fizeram-me manter na vontade de um parto normal, e assim foi. Às 41 semanas fui internada para indução, com prova de parto (no meu caso, caminhadas/subir e descer 2x por dia a escadaria do prédio/sexo/comida picante não surtiram qualquer efeito. Felizmente sou excepção e não regra). Às 41 semanas e 1 dia ele nasceu, um bocado mais a mal do que a bem, mas nasceu, saudável e vivaço. Tu escolheste o que te fez mais sentido, e assim é que deve ser, na minha humilde opinião. E há-de correr tudo bem!

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