a república das bananas chegou à saúde

Depois de muito andar e pensar e perguntar, decidimos não ceder à chantagem emocional das empresas privadas e doar o sangue do cordão umbilical do bebé ao banco público, a Lusocord. Aquela que parecia uma decisão difícil revelou-se extremamente fácil, assim que percebemos (porque pessoas competentes e sem interesses financeiros no assunto nos explicaram) que o sangue preservado nos bancos privados tem zero de vantagens para uso do próprio. Doenças genéticas? Esqueçam, o DNA das células do cordão é o mesmo do bebé, também lá está o erro genético. Cancros do sangue, como leucemias e afins? Esqueçam – os estudos mais recentes dizem que já lá está, nas células do cordão, a informação que levará ao desenvolvimento dessa doença. Para os outros cancros esqueçam também – eles surgem, na sua maioria, depois dos 40-50 anos, altura em que o sangue do cordão já foi para o lixo, se é que a empresa a quem o confiaram não faliu antes do fim dos 20 anos contratados. O único uso que poderá ter este sangue guardado em banco privado é se um dia tiverem outro filho e esse sim, tiver uma doença e for compatível com o primeiro. Não vamos entrar nas probabilidades disto, se querem ir por aí falemos antes do euromilhões.

Portanto, banco público – esse sim, é o futuro. Devia ser obrigatório guardar-se o sangue de todos os cordões em banco público. Daqui a 15 anos todo o mundo era dador e a probabilidade de encontrar compatibilidades seria muito superior à actual. E devia ser proibido os médicos andarem a dizer às grávidas que devia ser obrigatório fazer criopreservação nos bancos privados e até recomendarem um em particular. Devia dar direito a queixa crime.

Qual não foi, portanto, o nosso espanto, quando nos disseram hoje que o banco público está a trabalhar, na zona norte, em exclusivo com o Hospital de São João. Espera lá, exclusivo? Mas então o banco não é público? É, dizem os senhores do Centro de Histocompatibilidade do Norte, mas olhe, é o país que temos. Não me sabem dizer quem tomou a decisão, se o banco se o centro se o ministério. Não sabem quando deixará de ser assim. Sabem que neste momento só os bebés que nasçam no Hospital de São João poderão doar o sangue do cordão à Lusocord. O ridículo e o desperdício desta situação são angustiantes, o número de doações que não se fazem, que vão para o lixo, por decisões destas é absurdo. Não sei de quem é a responsabilidade, mas vou protestar. O sangue do cordão do meu filho vai para o lixo, quando podia, este ano, para o próximo ou daqui a vários, salvar outra vida.

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17 thoughts on “a república das bananas chegou à saúde

  1. Filipa diz:

    Há 6 meses, nem no S. João faziam a recolha. O Banco estava, simplesmente, fechado. Por esse motivo, não preservámos. Também li muito, pesquisei muito, recolhi muitas opiniões (de médicos das mais variadas áreas). A minha obstetra explicou-me tudinho, tudinho, tudinho o que referes no teu texto e disse-me qualquer coisa do género “ponham o dinheiro numa conta-poupança em nome da criança”. Foi um tema muito discutido e analisado. Mas, de forma consciente, tomámos a decisão que nos pareceu mais razoável.

    Quanto ao Banco só funcionar no S. João, penso que essa decisão surgiu no seguimento das notícias que deram conta da deficiente gestão das amostras recolhidas (muitas chegaram mesmo a ir para o lixo). Enfim…

  2. Infinitiva diz:

    No ano passado milhares de amostras já doadas a Lusocord foram para o lixo porque estavam conservadas inadequadamente. http://www.publico.pt/sociedade/noticia/millhares-de-amostras-do-banco-publico-de-celulas-estaminais-vao-para-o-lixo-1576572

    Têm um financiamento da treta, e como não se fazem omeletes sem ovos… não há milagres.

    • Mariana diz:

      Isto aconteceu na altura em que o banco esteve para fechar por falta de fundos. Mas se não fechou, então tem de ser maximizado. Eu até me ofereci para arranjar forma de lhes chegar a amostra sem terem de ir lá eles buscá-la (a colheita não é feita por eles, eles só recolhem) e não aceitaram.
      Há mais do que falta de fundos nesta história. Já ouvi dizer que mete o lobby das privadas, mas não tenho confirmação disto.

      • Também me parece que a campanha contra o Lusocord, o facto de ter estado encerrado durante meses e ter retomado só num hospital em específico também me cheirou ao lobby das empresas privadas que, em Portugal, dizem e fazem o que querem que não há parecer cientificamente que nos valha.

  3. Anónimo diz:

    E as privadas usam essas falhas do banco público para “angariar” clientes…

  4. Izzie diz:

    Eh pá, reclama, investiga, chateia, que isso cheira a esturro do bom.

  5. Smelly Cat diz:

    Eu nem quero acreditar numa coisa dessas! Isso deve ser mesmo para convencer as pessoas a fazer a criopreservação em bancos privados.

    Eu não percebo nada disto, mas eu tinha ficado com a sensação que havia um kit já preparado e que quem fazia a recolha eram os médicos que faziam o parto… Por isso, não faz mesmo sentido nenhum!

    Há que fazer barulho!

  6. Joana diz:

    O presidente do IPS, o Dr Helder Trindade, explicou a razão de só fazerem recolhas no norte. Manter um banco de sangue do cordão é muito caro, ao contrário dos dadores de medula que andam a passear a sua medula fresquinha, este exige espaço, refrigeração, pessoal especializado e condições técnicas muito especiais para manter a sua qualidade. O objetivo a longo prazo é fazer um banco com sangue doado o mais diversificado possível. As recolhas que estão a ser feitas agora são analisadas geneticamente, e só guardam as que interessam (hipoteticamente, se nascerem dois gémeos geneticamente idênticos, eles só guardam a colheita de um, e deitam fora a do outro porque não tem interesse).
    Além disso é preciso analisar todo o sangue em questão, para fazer parte da base de dados mundial, para quando é necessário algures no mundo ser logo encontrado e enviado (algo que não estava a acontecer com as recolhas que estavam a ser feitas por todo o país).
    Doei o sangue do cordão da minha filha antes de ser desactivado o banco, muito possivelmente o sangue terá ido para o lixo. É uma pena, mas é preferível não estar a funcionar a 100% do que estar a funcionar mal.

    • Mariana diz:

      Joana, concordo que seja melhor não funcionar de todo a funcionar mal. Mas a minha questão não é só estarem a recolher no Norte – é no Norte só estarem a recolher num hospital. E mais do que uma pessoa da área me disse que a pressão das empresas privadas tinha tido um peso grande na decisão. Mais uma vez digo que não sei se isso é verdade ou não, mas que também já ouvi muitos pais dizerem que como não podem doar à Lusocord vão fazer preservação no privado ouvi. E assim estão os privados a aproveitar-se de uma falha do banco público, porque a maioria das pessoas não percebe que se trata de coisas completamente diferentes e acha que escolher o privado é uma alternativa ao público.

  7. Da mesma forma que considero que a publicidade enganosa que estas empresas fazem (as tão comuns sessões de esclarecimento) devia ser proibida.

    • Mariana diz:

      Devia sim. Aliás, há uns tempos uma delas (não sei qual) foi obrigada a retirar uma campanha das televisões, por ser considerada chantagem emocional. Tinha uma criança doente a perguntar, com ar miserável, aos pais por que não tinham preservado as células do seu cordão. Era nojenta.

  8. Ana diz:

    Este texto poderia ter sido escrito por mim. Precisamos de um banco público a funcionar como deve ser e deveria ser obrigatório doar no público porque todos sairíamos mais beneficiados. É mais uma das situações em que o medo move a sociedade e isso é explorado. E o pior é haver livros de Obstetras e revistas de maternidade que falam disto de forma claramente tendenciosa, sendo essa a informação que passa a quem não se informe mais sobre o assunto. Também contactei a Lusocord e nada feito…nem sequer sou do Norte, mas concordo que algo deveria ser feito. Não nos manifestamos, o tempo vai passando, e os cordões vão sendo desperdiçados. O primeiro passo seria as pessoas terem noção disto tudo, boicotando os privados. Posso estar a ser utópica mas acredito que isso possa acontecer nos próximos anos.

  9. Ana Sofia diz:

    Quando estive grávida (em 2010) decidimos logo doar o sangue do cordão ao banco público. Até que um dia, no site da Lusocord, tive a curiosidade de ver as exclusões, ou seja, quem não poderia doar. E a minha doença de sangue de estimação, a talassémia, estava no topo da lista. Resultado, o sangue do cordão foi para o lixo. Sim, porque ainda houve 1 empresa privada que nos garantiu que podia muito bem preservar, já que eu não saberia logo à nascença se o meu filho também teria o mesmo problema ou não. Mas quando liguei para o Instituto Ricardo Jorge e me informaram que só por volta de 1 ano de idade do bebé é que se teria a certeza, mandei a dita empresa dar uma volta.

  10. Anna Blue diz:

    Clap, clap, clap para o teu texto enquanto serviço publico de informação. Doámos à Lusocord mas fomos o unico casal na nossa teia de relações que o fez. Todos os outros optaram por crioconservar. Somos o únco casal que se tornou dador de medula (bom, o gajo tentou mas as hérnias não deixaram), apesar de já ter apelado muito para que outros nossos amigos o façam. Chego à conclusão que ainda se olha muito apenas para o próprio umbigo e que há muita falta de informação, desinteresse. É por isso que textos destes deveriam ser mais frequentes. Em relação ao Lusocord foi com muita pena que acompanhei as noticias ( e decerto que a amostra do meu filho deve ter ido para o lixo porque foi na mesma altura que sairam as noticias sobre as dificuldades de financiamento), e hoje ao ouvir que vão mudar a porcaria dos pórticos da ex-scut e deitar 170 milhões de euros para o lixo, só me apetece abrir caminho à estalada até à Assembleia da republica. É por isto que não saimos da cepa torta. As prioridades estão todas ao contrário.

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