groundhog day

Não há horários, o leite não chega, o sono também não. Há horas intermináveis de choros inexplicáveis, sem mais dores que as de fazer crescer um sistema nervoso imaturo e sobre-estimulado. Há dores de crescer de mãe também, sempre que alguém, além do pai, lhe pega e lhe chama meu menino. O menino é meu, só meu, já não está aqui dentro mas nunca deixará de estar.

Houve dias intermináveis de lágrimas e sensação de fim de uma coisa que ainda agora começou, como se fossem já as saudades do filho que um dia sairá de casa e será cada vez mais dele e do mundo e cada vez menos meu. Achamo-nos perdidas, bichos raros, arrogantemente pensamos que ninguém mais sabe ou sente isto que quase explode cá por dentro. E depois, nos cinco minutos que conseguimos dedicar ao restante mundo, vemos que há mais quem pense e sinta exactamente assim. E respiramos de alívio, parece que é normal, há-de passar. E passou.

Não passou o sono, parece não passar nunca. Não acordo imediatamente mais feliz por ele existir – é ele o meu despertador e, como a qualquer alarme, o primeiro instinto é martelar o snooze e dormir mais 10 minutos. Mas espantado o sono, recordadas as bochechas, o cheiro, às vezes o sorriso, se tenho sorte, inundo-me repetidamente de amor. E levanto-me e levanto-o, vamos os dois para a sala, abrimos a janela, cheiramos o mar e sentamo-nos. Dar de mamar é maravilhoso nos primeiros 2 minutos e durante o dia, nos restantes é chato e interminável, à noite é tortura. Não gosto de dar de mamar, não gosto de me sentir má e menos mãe por não ter leite que chegue, por ele ter dores de barriga e refluxo e obstipação por ter de lhe dar leite de lata – e sim, eu sei que a culpa não é minha, mas os argumentos racionais pesam muito pouco numa tempestade hormonal.

Dizem que um dia ficará mais fácil. Que ele vai aprender a dormir mais do que 3 horas seguidas, que vão passar as dores, que haverá sorrisos e gargalhadas e beijinhos e muito mimo. Dizem. Neste momento em que me encontro tudo me parece miragem. Os dias e as noites sucedem-se em catadupa, todos iguais, um único e contínuo dia interminável. Espero pelo dia em que este groundhog day acabe e amanhã seja, verdadeiramente, um novo dia.

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18 thoughts on “groundhog day

  1. Filipa diz:

    Acho que até rosnava quando alguém pegava no meu filho (pai excluído, claro!). Tenho a certeza que me saiam faíscas pelos olhos. Também nunca achei muita piada à amamentação mas, surpreendentemente, quando ao fim do primeiro mês tive de parar de o amamentar, chorei muito. Senti-me a pior mãe do mundo! Vá-se lá entender!

    Costumo dizer que ser mãe é o trabalho mais difícil e exigente que já executei, até hoje. O cansaço, as hormonas, as novas rotinas, a correria do dia-a-dia, a falta de flexibilidade para fazer o que quero quando quero, o vê-lo crescer e tornar-se cada vez menos “meu”… é tudo muito difícil de gerir. Mas quando o vou buscar a casa dos meus pais e ele me lança um sorriso “daqueles” fico com o coração derretido. Estes nossos filhos são uns pequenos ditadores e “manipulam-nos” como ninguém… 🙂

    Força Mariana! Alguma coisa que precises, diz. Beijinhos!

  2. DNC diz:

    Como te compreendo… E fico triste por ti, por te sentir assim “desamparada”… mas olha, isso melhora, mesmo. Os primeiros meses do primeiro filho são muito difíceis, mesmo muito, mas não tarda vais sentir-te como se nunca tivesses sido outra coisa na vida que não mãe. Prometo. (Se precisares de alguma coisa liga. A sério. Sabes que estou aqui.)

    • Mariana diz:

      Não me sinto desamparada, sinto-me impotente. Sinto-me a navegar numa coisa que não tenho como controlar e isso deixa-me desnorteada. Há-de passar. Obrigada *

  3. Mac diz:

    Não é fácil, não, e a sensação de solidão é um monstro a pesar-nos em cima, mas não estamos tão sós como sentimos, nem somos tão abjectas como nos achamos.

    Olha, do meu primeiro filho cheguei a pensar “o que fui eu fazer”, do segundo também. Pensei e disse-o. Há horas mesmo muito más. Depois aprendi a encaixar, coisas simples como me deixar levar pela rotina deles e não forçar o regresso rápido de uma vida que não podia ter. Queria ir almoçar com as minhas amigas, queria ir fazer compras, queria sair, e não se consegue, eu não conseguia, e ficava completamente infeliz. Com o segundo filho, já sabia que ia dormir pouco, que ele ia mamar de três em três horas (às vezes duas), que não ia conseguir fazer milhares de coisas, talvez por ter as expectativas tão em baixo, a coisa correu bem melhor do que com o primeiro.

    Adorava ajudar-te. Se servir para alguma coisa, pensa que isto é mais complicado nos dois primeiros meses, é verdade, principalmente durante o primeiro mês, depois o bebé ganha rotinas, começa a dar noites completas e nós bem dormidas, ou melhor dormidas, ficamos com a cabeça mais em ordem.

    Se não queres amamentar, não o faças, já o disse à Leididi, não é crime, não é obrigação, faz o que é melhor para ti, o teu melhor, é o melhor para ele, e uma mãe feliz é seguramente a melhor de todas as escolhas.

    Principalmente não dês ouvidos a toooooda a gente, só serve para ficarmos mais desorientadas 🙂

    • Mariana diz:

      Também já pensei e disse “mas o que fui eu fazer?”. E, brevemente, acho que se houvesse máquina do tempo teria voltado atrás sem pensar duas vezes. Por alguma razão a privação de sono é técnica de tortura…

      Eu quero amamentar, acho que é o melhor para ele e não me custa. Quer dizer, à noite custa, mas pronto, há-de melhorar que ele há-de dormir mais e ficar mais rápido. Só não morro de amores, não sinto aquele deslumbramento de que fala tanta gente. Acho que é mito urbano 😉

  4. Ana diz:

    Hormonas e privação de sono retiram-nos a lucidez e deturpam os sentimentos. E se tenho a sorte dele não ser chorão e ser raro passar mais de uns segundos a chorar copiosamente, já no sono acorda muitas vezes e é muito comilão. Não há meio de espaçar as 3 horas, quando não são 2 horas.
    Há uns dias, sem perceber porquê só chorava. Achei que estava a ter um babyblues com umas semanas de atraso, só podia. Chorava porque achava que não ia aguentar o amor que sinto por ele, que ia explodir por não caber tamanho amor no peito. Chorava porque sentia que não o iria conseguir proteger dos perigos deste mundo e ao andar de carro parecia que fulminava condutores que se aproximavam de nós e que poderiam fazer-lhe mal com uma batidela. Chorava porque fui 3 horinhas espairecer à praia e ao chegar lá já estava com saudades dele. Chorava porque estava obstipado e eu não aguentei a maldita mastite e devia ter aguentado 3 ou 4 se fosse preciso porque ele dantes não ficava preso e agora ficava porque eu já não tinha leite.
    Até que… apareceu pela primeira vez o período após o parto…e nos dias seguintes já não sentia nada disto. Sentia e sinto que é tão mas tão bom tê-lo, que aconteça o que acontecer nesta jornada, já tudo valeu a pena. Os perigos ficaram mais pequenos, os medos fora da porta, as culpas facilmente atiradas pela janela. Estes altos e baixos ajudam-nos a perceber que aquilo que hoje parece tão real, amanhã já será diferente, nós é que estamos numa grande bolha e acima de tudo, estamos cansadas. Vai melhorar sim!

  5. Acho que desta vez consegui ter um bocadinho de compaixão por ti em vez de só inveja 🙂

    • Mariana diz:

      Ah mas também tiveste inveja? Olha que não há ali nada que invejar…

      • Tenho muita, quero muito ter filhos e até a mim o “agora não dá” começa a soar a desculpa esfarrapada para viver com prioridades impostas que me são estranhas (carreira, dinheiro, áreas imobiliárias) em vez de com as que sinto minhas.

        E ainda por cima esse é lindo, lindo, lindo.

  6. Izzie diz:

    Olha, como conselhos não posso dar, cá vai beijinho repenicado, e abracinho apertado.
    (se quiseres sentir-te a melhor mãe do universo, pensa como reagiria eu na tua situação.)

  7. Cristina diz:

    Mariana, deixa-me dar os parabéns por teres sido mãe, ainda não o tinha feito. Fomos próximas há uns bons tempos atrás e tenho pena que nos tivéssemos afastado. Entretanto, fui sabendo pelo blogue as voltas que a tua vida tem dado, a minha também deu uma reviravolta. Não sei se te lembras que me irritei por causa de algo relacionado com a infertilidade, que era a minha dor mais profunda. Comecei a cortar com todas as pessoas que eu sentia que me estavam a ferir, fosse ou não a realidade, era a minha realidade. Fui mãe a 14 de Novembro. E, de coincidência em coincidência (soube da tua gravidez ao mesmo tempo que a de uma amiga da infertilidade, que foi mãe pouco tempo depois de ti), fui acompanhando o teu blog. Passei muitas semanas a pensar que tinha desejado tanto ser mãe e afinal era aquilo… não tinha coragem para assumir arrependimento, tentei convencer-me que ia passar. E a verdade é que as coisas foram melhorando. Não vou falar das noites, porque não quero desanimar-te com a minha experiência. Mas falo-te dos dias, esses sim vão começar a ser cada vez mais recompensadores.

    Em relação à amamentação, quase perdi o leite, quando estive 1 semana internada no hospital, tinha o meu filho 2 semanas de vida. Ele ficou internado comigo e só com muito esforço depois da minha alta o meu leite não secou. Dei suplemento, ele não sabia beber pelo biberão. O peso não progredia. Até aos 3 meses e meio foi um tormento amamentar, porque ele era molengão e eu chegava a estar hora e meia a dar de mamar, pôr a arrotar, mudar fralda pelo meio. Não saia de casa, recebia poucas visitas. Mas por volta dos 4 meses começou a ficar mais eficiente a mamar. E aos 4 meses e meio começou os sólidos. E chegou o verão e comecei a dar-lhe sólidos para as mãos e a variar cada vez mais aquilo que come (tenho a certeza que vais adorar esta fase e eu mal posso esperar para ver receitas para bebés no Caos). E levei-o à praia, ele adora areia e mar. E começou a rastejar, a pôr-se de pé, a sofrer de mãezite, a bater palminhas, e tudo e tudo e tudo. Vai melhorar. Acredita que vai. Continuo a dar de mamar e, para mim, é a única forma que tenho para silenciar o seu choro, principalmente durante a noite, já que ele não aceita nem chuchas nem biberões nocturnos. Sinceramente, não sei como fazem as mães que dão só LA.

    Preferia que este comentário ficasse só para ti, não precisas de o publicar. Quero mandar-te um beijinho, pedir-te desculpas se te magoei em tempos e dizer-te que tenho saudades de conversar contigo. A minha porta está aberta, espero que tenhas vontade de entrar

  8. Queen of Hearts diz:

    Eu só queria exprimir a minha solidariedade contigo, porque me parece que passei uma experiência psicológica e emocional (além da de sono, que era igualzinha) com muitos pontos em comum com a que descreves e com a que a Mac descreve no seu comentário. Há frases que me parecem poder ter saído das minhas próprias pontas dos dedos, naquilo que vocês disseram. Eu também chorei muito, também desejei muita coisa, também me consolei com o simples olhar para ele, num desequilíbrio imenso, num oscilar de extremos quase insuportável. Senti-me profundamente defraudada em expectativas que eu sabia que não podia ter, e às quais pensava que tinha sido capaz de resistir, que nem sequer me apercebi que existiam lá por dentro. Infelizmente, fui fraca e não fui capaz de lidar com as pressões que criei para mim mesma; desejo com todas as minhas forças que o teu groundhog day páre de se repetir muito em breve, e voto em ti e na força que me pareces ter toda a minha confiança, no sentido de que sei que não vais capitular perante este início, que é quase sempre um bocado árduo.
    Por fim, solidariedade também no separador “amamentação”. Independentemente das escolhas que sejam traçadas no que respeita a esse caminho, e que apenas pertencem a cada um(a), solidarizo-me contigo. Não é um deslumbre, não. E as noites custam para caraças. No meu caso, fiz uma opção e depois tentei ser-lhe fiel, sentindo-me feliz por tê-la cumprido parcialmente, em relação àquilo em que acreditava. Mas também não foi deslumbrante nem particularmente mágico (vejo-o bem, principalmente longe do filtro das hormonas) e entendo-te bem nesse aspecto.
    Um abraço e que a serenidade dos dias regresse rápida e permanentemente.

    • Filipa diz:

      Gosto de vos ler. Percebo que as minhas imperfeições são normais e que as outras mães também passam/passaram pelos mesmos medos/receios, também têm/tiveram os mesmos pensamentos e as mesmas angústias, também sentem/sentiram as mesmas dificuldades.

      Estava fartinha de teorias e de mães “perfeitas”! Obrigada pela partilha. 🙂

  9. What Elsa diz:

    Não estás só, não. Sois muitas, é como se costuma dizer “sois mais ‘cás mães”.

    http://lifestyle.publico.pt/artigos/324603_as-maes-nao-se-medem-as-mamadas

  10. Margarida diz:

    Eu sei que o cansaço é grande, mas os teus textos estão deliciosos! 🙂 beijinhos

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