Monthly Archives: Março 2014

primeiras vezes que podiam nunca existir

Cheiras a brufen e a febre em vez de cheirares a bolachas. A tua febre não é como a dos livros, aquela que é boa porque ajuda a combater os bichos. A tua febre queima-me as mãos e o coração, carne da minha carne a arder-me nos braços.

a puta da culpa apanha-nos sempre

Nunca quis ser mãe a tempo inteiro, mas depois tem-se um filho e as hormonas deixam-nos a pensar nisso. Ah e tal se calhar é melhor para ele e quase nos conseguimos enganar e acreditar que não precisamos de outra coisa para sermos felizes.
A muito custo lá saímos de casa, deixamos a criança entregue a alguém de confiança, escolhido a dedo, e vimos cheios de culpa de regresso ao mundo que, surpresa, continua a existir fora da nossa condição de mãe. Ao fim de algum tempo começamos a sentir- nos normais outra vez, sabemos isso quando nos apercebemos que não olhámos para o relógio setecentas e vinte e três vezes por hora, que conseguimos pensar noutra coisa que não no bebé que abandonámos em casa e até vamos sendo capazes de raciocínios mais ou menos completos e inteligentes.
E é aqui, pumba, que volta a culpa, a puta da culpa, porque se conseguimos ser tão distantes e normais tendo abandonado a criança, privando-a da sua mãe, só podemos ser umas cabras sem coração. Foda-se.

flashback

Há 1 ano estava grávida. Há 2 anos também. Há 3 anos fiz uma grande festa e a minha mãe ainda lá estava. Há 5 anos estava a preparar-me para mudar de vida e seguir, finalmente, o meu sonho. Há 10 anos estava a acabar psicologia, numa relação estagnada e a meses de conhecer o meu grande amor. Há 15 anos entrei para a universidade pela primeira vez, para o curso errado mas onde conheci gente que ainda hoje é a minha gente.
Há 20 anos comecei a namorar a sério pela primeira vez e achava mesmo que ia durar e que íamos casar – felizmente não. Há 33 anos nasci, de cesariana por já ser tão teimosa.

ainda o fato de banho

De repente ocorreu-me a mãe de todas as razões para aderir: este ano vai haver fotografias na praia. Shoot me now.

ora portanto, a pergunta que se impõe

Onde comprar fatos de banho giros que não nos deixem com ar de avós e sirvam a gente que costuma comer mais que meia maçã por dia?

prioridades

Pus-me a pensar nas ferias de verão de que já tratei e nisto de enfrentar a praia e o biquini e será que não devia era comprar um fato de banho. Não me sinto muito bem com o meu corpo, o que também não é de agora mas que sofreu óbvio agravamento depois da gravidez. Apesar dos quilos ganhos já se terem sumido, a barriga ficou maior e mais flácida e está mesmo a pedir exercício físico, aquela coisa de que nunca fui grande fã.
Isto levou-me a um espera aí, é verdade que não me sinto bem com o meu corpo, mas muito antes disso não me sinto bem comigo por não ter tempo para muitas outras coisas que são mais importantes. Para ler, para estudar, para me estimular o intelecto, para beber um copo ao início da noite, marido à mão e puto a dormir. Estas coisas são muito mais fundamentais ao sentir-me bem em mim e comigo do que a barriga e a balança. Venha o fato de banho, portanto. E um ou dois livritos.

sabes que o dia só pode piorar

quando ainda não são dez da manhã e tu já enfardaste um corneto porque era o único chocolate que havia em casa e de que precisavas muito porque é um daqueles dias, o gato acordou o puto-que-não-dorme às cinco da manhã e tu és defensora dos animais e só por isso é que ainda não o atiraste da janela, às seis estávamos todos fora da cama, às oito e um quarto tinha acabado a primeira sesta de meia hora, a membership de um site onde já tinhas enfiado uma tonelada de informação expirou e tu não consegues perceber como raio se renova e o puto está tão estourado que não te larga dois segundos, só quer colo colo colo ou então puxar os fios das extensões de electricidade ou do carregador do telemóvel ou do aquecedor e ainda não são dez da manhã e tu já estás tão tão cansada que de repente até apetece que amanhã não fossem férias de carnaval mas dia de aulas normais para poderes respirar fundo e sentir-te pessoa outra vez.

para sempre mãe

Há dois anos, na manhã de uma quinta-feira, a minha mãe suicidou-se. A depressão que a comia por dentro há demasiado tempo levou a melhor e ela foi incapaz de continuar a lutar. Não se despediu, não sei se foi sequer planeado. Acredito – ou quero acreditar – que não. Há dois anos a depressão, que as pessoas pequeninas continuam a acreditar não ser uma doença a sério, uma doença que pode matar, matou a minha mãe.

Durante muito tempo (e ainda hoje, por vezes) a culpa. De não ter visto os sinais, de não ter percebido que era tão fundo e escuro o buraco, que eram tão imensos o desespero e a impotência. Durante muito tempo a raiva, estar zangada com ela por ter feito o que fez. Durante muito tempo o não saber como seguir em frente, achando que nós não tínhamos sido o suficiente para ela querer ficar.

Ainda a sensação de desperdício, a surrealidade do acto, da transformação nas nossas vidas, do desaparecimento súbito e permanente. O peso deste para sempre tão impossível.

Para sempre a saudade. A pena pelo neto que ela nunca conhecerá, pela avó que o meu filho nunca terá. Para sempre as memórias, as suas mãos, a sua voz. Para sempre o vazio. E o amor.