para sempre mãe

Há dois anos, na manhã de uma quinta-feira, a minha mãe suicidou-se. A depressão que a comia por dentro há demasiado tempo levou a melhor e ela foi incapaz de continuar a lutar. Não se despediu, não sei se foi sequer planeado. Acredito – ou quero acreditar – que não. Há dois anos a depressão, que as pessoas pequeninas continuam a acreditar não ser uma doença a sério, uma doença que pode matar, matou a minha mãe.

Durante muito tempo (e ainda hoje, por vezes) a culpa. De não ter visto os sinais, de não ter percebido que era tão fundo e escuro o buraco, que eram tão imensos o desespero e a impotência. Durante muito tempo a raiva, estar zangada com ela por ter feito o que fez. Durante muito tempo o não saber como seguir em frente, achando que nós não tínhamos sido o suficiente para ela querer ficar.

Ainda a sensação de desperdício, a surrealidade do acto, da transformação nas nossas vidas, do desaparecimento súbito e permanente. O peso deste para sempre tão impossível.

Para sempre a saudade. A pena pelo neto que ela nunca conhecerá, pela avó que o meu filho nunca terá. Para sempre as memórias, as suas mãos, a sua voz. Para sempre o vazio. E o amor.

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9 thoughts on “para sempre mãe

  1. Filipa diz:

    Penso muitas vezes em vocês. 😦 força Mariana! Abraço apertado!

  2. Anónimo diz:

    Não consigo imaginar o que seja passar por algo assim… 😦 Um beijinho enorme*

  3. Filipa diz:

    Um abraço daqui aí, Mariana. Apertado.

  4. Vespinha diz:

    A minha mãe chegou a ter isso planeado. Mas, por sorte, acabei por perceber os sinais , descobrir e fazer qualquer coisa. Havia a separação do meu pai, uma depressão antiga, mais propriamente doença bipolar, e tudo se encaminhava para o pior desfecho. Felizmente (mas só por sorte, repito), dei por isso a tempo, arranjei-lhe o melhor psiquiatra do mundo e nunca mais desvalorizei os momentos maus que graças à medicação são cada vez menos.

    Um grande beijinho e muita coragem.

  5. Anónimo diz:

    A clareza da tua escrita é um óptimo sinal.
    Beijinhos

    p.s. não nos conhecemos; leio-te por aqui; percebi perfeitamente a mensagem deste post 🙂

  6. Leana diz:

    Desculpa perguntar mas ela alguma vez tinha mencionado essa possibilidade?

    Um beijinho muito grande e um abraço cheio de boa energia para ti.

  7. Paula diz:

    A minha mãe também teve uma depressão.
    As depressões só melhoram.
    Mas nunca mais têm cura.
    A depressão de algum familiar, faz toda uma família ficar doente.
    A minha mãe morreu de cancro.
    Não sabemos nada sobre o cancro… mas no caso dela ninguém me convence que o cancro não andou de “mãos dadas” com a depressão.
    A depressão é uma merda…
    Ajudar um deprimido é uma tarefa tão, mas tão gigantesca, que não consigo encontrar a palavra com a dimensão certa.
    Os sinais… a culpa…
    É tão dificil decifrar uns como evitar que a outra nos perseguia.

    Desejo que a dor se torne cada vez mais pequena, ou cada vez mais “alojada” para se seguir em frente.

  8. Uma das pessoas mais importantes da minha vida sofre de depressão há muitos, demasiados anos. São mais os anos de existência na depressão do que fora dela. Chegou a haver uma tentativa de suicídio há muitos anos também, seguida da promessa que até agora cumpriu de que não o voltaria a fazer. A diferença é que é uma enorme impotência em vida. Já passei pela revolta de achar que não se estava a esforçar o suficiente nos tratamentos, pela culpabilidade de sentir que não conseguia ajudar (ainda por cima trabalho em saúde mental) e pelo medo de um dia algo acontecer e achar que poderia ter feito mais porque muitas vezes sinto que desisti e que me resignei. Já tentámos tudo. Uma vez perante a frase de que não estava a fazer nada aqui, respondi com muita mágoa se nós não eramos suficientes para querer viver. Disse-me que não era justo permanecer no sofrimento para que quem ama não sofra (ainda que a promessa de não o voltar a fazer tenha tido origem na consicência de não nos querer fazer isso). E a verdade é que quando penso nisso, sinto que tem razão… ao mesmo tempo que penso que o fim desse sofrimento leva ao aumento do sofrimento de outros, neste caso, no nosso. Mas não é egoísmo preferir que alguém continue a sofrer e fique por cá para que não soframos tanto? Enfim…lembrei-me disto tudo. Há depressões e depressões. E algumas efectivamente tratam-se, têm uma origem mais simples, mais reactivas. Outras são crónicas, passam a fazer parte da pessoa. Fará sentido viverem assim? Não sei, não tenho resposta, e quem sou eu para querer o que quer que seja…só sei que não quero que o sucidio aconteça ao mesmo tempo que não quero que sofra e não parece haver equação que resolva isto.

  9. Vespinha diz:

    Gostei do que escreveste, Mãe Sabichona, muito lúcido.

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