Monthly Archives: Julho 2014

364 dias

Há um ano era domingo e caminhámos horas junto ao mar, na tentativa de te convencer a nascer. Eu tinha mais 17 quilos e um coração mais pequeno do que hoje. Há um ano achávamos que sabíamos muitas coisas e eu tinha muitas certezas sobre a mãe que iria ser.
Este ano mudou toda a minha vida. Fiz um luto duro pela vida que deixei de ter e da qual ainda tenho saudades. Foi um ano duro para mim e um ano duro para nós. Houve alturas em que achei que não iríamos resistir, não como pais mas como amor. Resistimos e esperamos e lutamos por nós.
Este ano aprendi que não sabia quase nada e a mãe que sou tem pouco a ver com a que dizia que ia ser. Dormi muito pouco e uma mão sobra para as noites de mais de seis horas seguidas de sono. Mas deixo-te cair, esfolar os joelhos, regar as flores e os pés mesmo quando não está assim tanto calor. Deixo-te explorar o mundo e faço-me rede escondida.

És o nosso amor pequenino, o nosso amor maior. Olhamos para ti e espantamo-nos por existires e por teres saído de nós. Por seres tão incrível, tão maravilhoso, tão bonito. Damos-te o mundo e ao mundo, filho, na esperança de que queiras sempre voltar um pouco ao nosso colo.

Amanhã o dia é teu, ainda mais que nos últimos 364. Haverá água, meu peixinho, toda a que pedires e os teus dedos enrugados deixarem. E todos os beijos que conseguirmos dar nessas bochechas.

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Há dias em que me ponho a pensar na vida e acho e sinto que ainda não fiz nada. Já tenho um filho, 1 licenciatura, 3/4 de um mestrado integrado, 1 pós graduação, mas acho que ainda não fiz nada. Nunca contribuí para a sociedade, nunca fiz nada para fazer deste um mundo melhor.
Há dias em que estou em paz com isso, em que acho que estou a demorar mais tempo a lá chegar, mas que chegarei, um dia. E depois há os dias em que vejo o que os outros fazem e já fizeram. Dias em que vejo antigos colegas de escola doutorados, a progredir nas suas carreiras e eu ainda aqui, nos bancos da escola com meninos uma vida mais novos que eu.
Há dias em que é difícil sentir-me e saber-me um fardo. E sentir que ainda falta tanto para isso acabar.

pequenos prazeres inúteis

Eu leio enquanto ele dorme. Tu chegas com os mirtilos e, em bicos de pés, trazes-me uma taça cheia. Grandes e doces, são os últimos do ano. Sais sem fazer barulho, o sono dele é frágil e precioso. Lembro-me que te trouxe um croissant da padaria e mando-te uma mensagem, para não me mexer e não o acordar. Trocamos sorrisos, reais e virtuais, o amor nos pequenos mimos que nos damos.

dias a dois

É fim da manhã e dormes a sesta. Eu leio, ando pela net, dormito enquanto velo o teu sono e espero que acordes. É Verão, dizem. Não está sol nem calor de praia, espero que ainda venha. Acordas, mamas e vamos tratar do almoço. Ter um filho que come de tudo é tão bom! Comemos massa, porco com alecrim desfiado do assado de domingo, salada de tomate coração de boi. Comes com a mão e eu junto-me a ti, sabe tão bem. Olho para os pratos e gosto: até o pesto da nossa massa fria foi feito por mim, com a rama das cenouras do mercado e amêndoas. O alecrim é do quintal do avô. Tudo fresco e sazonal, parte do que te quero ensinar.
Dou-te um bocado de tomate. Já sei que não gostas, mas não desisto de tentar. Olhas desconfiado, pegas e provas. Ainda não foi desta. Um destes Verões lá chegaremos.
Partilhas a carne com o gato que te ronda a cadeira, sempre atento. Se me distraio rouba-nos o almoço, mesmo sem saber se gosta.
No fim, melancia. Tens 11 meses mas já sabes, só a olho, que a melancia de que gostas não é o tomate de que não gostas. Comemos melancia fresca, escorre-nos pelos dedos.
Podia ser no Alentejo esta felicidade, ou podia ter porta para um jardim. Mas assim já é tão boa e tão doce. Como o teu sorriso a transbordar melancia.