a esclerose lateral amiotrófica e a indústria farmacêutica

ou porque é que o ice bucket challenge não é parvo

Eu sei que já ninguém anda a falar disto e lamento estar a chegar tarde à mesa, mas não queria deixar de dizer qualquer coisa.

Antes de prosseguir esclareço que não estou a defender ou criticar a indústria farmacêutica, estou apenas a explicar o seu funcionamento.

A indústria farmacêutica é composta, maioritariamente, por empresas privadas – ou seja, empresas que dependem de lucros próprios para subsistir. Quer isto dizer que têm de fazer dinheiro com aquilo que fabricam e vendem.
Desde que alguém dá o sim (e dinheiro) ao projecto de um novo medicamento até ao momento em que esse medicamento chega ao mercado, disponível para a população, passam, em média, 13 anos. E nem todos os projectos de medicamento chegam ao fim desta maratona – por variadas razões, muitos ficam pelo caminho. Durante esses 10 anos, o medicamento é desenvolvido, testado em diferentes populações, repetidamente e por longos períodos de tempo, sem que dê qualquer lucro. É, admitamos, um grande grande investimento por parte da empresa.
Porque reconhecemos, como sociedade, este investimento, criámos regras que permitem que a empresa que desenvolveu determinado fármaco tenha direito exclusivo à sua produção e lucro, durante os primeiros 20 anos após a sua introdução no mercado – são as leis das patentes. Após este tempo, o medicamento pode ser fabricado por outras empresas, surgindo os genéricos. De uma forma simplista, é este o processo.
Agora pensemos: se uma empresa tem pela frente 10 anos de investimento sem retorno, tem de escolher muito bem os projectos em que investe. E se só vai ter 20 anos de lucro exclusivo e se é uma empresa privada, que não recebe fundos públicos, tem de maximizar o lucro futuro – só assim consegue manter a funcionar os outros projectos em várias fases de evolução e financiar novos potenciais medicamentos.
Se me acompanharam até aqui, ponho-vos o seguinte problema: são a empresa farmacêutica e têm que escolher entre dois projectos – o projecto A é um medicamento para a hipertensão, o projecto B um medicamento para a esclerose lateral amiotrófica. Sabendo que, no mundo, há cerca de 1.000.000.000 de hipertensos e que haverá, estimando por alto, 70.000 pessoas com esclerose lateral amiotrófica, e sabendo que a esperança média de vida de um hipertenso é superior à de um doente com ELA (portanto, e de um ponto de vista puramente consumista, se um doente vive mais tempo é mais tempo que toma o medicamento), em qual investiam?

A esclerose lateral amiotrófica é uma doença terrível. Não tem cura. Tem uma esperança média de vida de 3 anos. Neste momento a única coisa que a indústria farmacêutica tem para oferecer a estes doentes é um medicamento que pode atrasar a progressão da doença e dar-lhes, no máximo, mais 6 meses de vida. A indústria farmacêutica não investe nesta área porque não compensa.
Num ano normal, a angariação de fundos para a investigação em ELA arrecadava menos de 20 milhões de dólares. Com o ice bucket challenge, no final de agosto as doações tinham ultrapassado os 100 milhões. É parvo despejar um balde de gelo pela cabeça abaixo? Talvez. Mas conseguiu, em dois meses, dar a conhecer ao mundo uma doença que pouca gente sabia existir e aumentar em 500% o dinheiro angariado para a causa. Já vi coisas mais parvas.

Numa mensagem paralela: é por isto que os governos não podem deixar de investir em ciência. Porque eles podem escolher os grupos pequenos, as doenças raras, aqueles que representam lucros mínimos ou inexistentes, para os quais é preciso perder dinheiro em busca de uma cura ou de um tratamento mais digno desse nome.

Advertisements

2 thoughts on “a esclerose lateral amiotrófica e a indústria farmacêutica

  1. Infinitiva diz:

    “O Capitalismo significa que há muito mais pesquisa sobre a calvície masculina do que sobre doenças como a malária.”

  2. Juanna diz:

    Ouvi algumas piadas por defender o Ice Bucket. Fiquei sem um irmão à pala da ELA e defendo todos os Ice Buckets, todos. Argumento base “como podem gastar água havendo gente a morrer à sede?”. Da mesma maneira que o campo de golf cujo nome não me lembro no Dubai precisa de 8 milhões de litros de água por dia. 8. milhões. dia. Podendo, o gerúndio.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: