praticar a vulnerabilidade

É dizer que, quatro anos e meio depois, ainda acho, por milésimos de segundo, que vejo a minha mãe passar na rua. É dizer que fui má filha. Que não soube chegar a tempo. Mas também reconhecer que talvez não dependesse de chegar ou não, porque ela queria mesmo muito morrer.

É admitir que o meu relógio biológico quer muito outro filho mas eu não sei se estou preparada para passar mais dois anos sem dormir. Não sei se eu aguento, se o meu casamento aguenta. Não sei se quero, apesar de querer.

É falar da angústia em forma de bola na garganta que não me larga, deste encontrar-me aqui, outra vez dependente de um exame que decida toda a minha vida. Mesmo sabendo qual é o meu lugar, sabendo que o mereço e que seria incrível nele.

É assumir o peso a mais e a infelicidade que me traz. É enfrentar a verdade de que nada mudará se eu não quiser. E muitas vezes não saber se quero, se consigo, se.

É arrastar noites em claro, adormecer de madrugada e acordar com beijos pequeninos. E morrer um bocadinho por dentro sempre que me lembro que ele não vai ser meu para sempre. É cheirá-lo e enchê-lo de beijos e mimos e colo e cócegas para saber de cor cada célula, cada gene, cada átomo. 

É esperar uma mensagem que não chega. É ter saudades de quem já não está, levado pela morte ou pelo desinteresse. 

É olhar para dentro. É ser mais eu.
(em resposta ao repto dela)

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7 thoughts on “praticar a vulnerabilidade

  1. Izzie diz:

    Foste e és a melhor filha que a tua mãe poderia ter, e és e serás a melhor mãe que o teu filho poderia ter. E ele será sempre teu, mesmo que disfarce muito bem daqui a uns Anos, e acredita que vai disfarçar. E tu és tu. E eu sei que pesa muit, a puta da vida e as suas decisões, mas teremos sempre chocolate, né? É.
    Adora tu.

  2. Gosto muito de ti. E reconheço, à distância de todas as léguas que nos separam, a tua vulnerabilidade como parte de um plural que somos nós. Ainda bem que somos nós.

  3. a (marte) diz:

    Pratica-se a vulnerabilidade ao mesmo tempo que se pratica a compaixão e assim vamos andando.

  4. Vânia diz:

    É por palavras tão bem escritas e sentidas que vou passando por aqui. è bom ler quem escreve, pensa e sente tão bem.

  5. Margarida diz:

    Também gosto muito de te vir cá ler! Boa sorte para o exame! Já foi? Beijinhos!

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