Author Archives: Mariana

meu querido ano todo

Gosto de morar numa cidade pequena. Gosto que o arquitecto com quem estou a pensar uma casa tenha sido aluno da minha mãe quando ela estava grávida de mim. Que a irmã dele tenha sido minha professora e que o pai tenha cantado comigo no coro. Gosto que um dos melhores amigos do meu filho seja filho de uma pessoa com quem brinquei quanto eu tinha a idade deles e neto de uma amiga da minha mãe, minha professora de português. Gosto de encontrar na rua uma antiga professora, afamada solteirona que morava com os pais já entrada em anos e de a ver, finalmente, de braço dado com alguém e um ar feliz. Gosto de conhecer quem me vende os legumes, a fruta e o peixe, como a minha mãe conhecia quando eu era pequena. Gosto que quem me vende a fruta e os legumes seja minha vizinha, a quem posso ligar para me trazer as coisas para cima, quando não consigo ir ao mercado. 

Claro que tudo se sabe e privacidade é uma utopia. Mas prefiro isto, estes cruzamentos entre as nossas vidas nas voltas que elas dão ao anonimato frio e sozinho das grandes cidades. 

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dias de telha

A vida devia ser mais que este eterno cansaço.

odiozinhos de estimação 

Gente que escreve “gambas à guilho”. 

Vejo-nos a levar os nossos filhos à escola ou sentados nas reuniões, nós que andámos juntos na escola, se não na mesma turma em turmas paralelas, nós que fizemos intermináveis meses de praia juntos, que jogámos volei e ao buraco, que fizemos moches, que íamos lá abaixo à noite, que reclamávamos sempre que nesta terra não há nada que se faça, que acabávamos invariavelmente na padaria aberta de madrugada, e acho-nos tão novos. Não temos idade para ter filhos, empregos, contas para pagar, cabelos brancos e primeiras rugas. Ainda ontem dançávamos Robert Miles todos os sábados à noite, ainda ontem saiu o Dookie, ainda ontem bebíamos Smirnoff Mule e ríamos como se aquele verão não tivesse fim.

desilusão de óptica 

Às vezes, de fugida, pelo canto do olho, ainda vejo a minha mãe em alguém que passa. É só um instante, um disparo fugaz que me chega ao córtex, mais emoção que percepção. Aprendi a não me assustar, a não deixar acelerar o coração, a não me virar. Como quem contorna um castelo de areia já não muito molhada sem o deitar abaixo, deixando que o mar o leve.

medo da noite 

Ando sempre exausta mas a chegada da noite deixa-me sempre ansiosa. Já sei que não vou dormir, que não vou descansar ou recuperar ou relaxar. Passo a noite a ser acordada, sugada e chateada. Queria tanto cinco horas de sono sem interrupções.

a vida é este agora 

Uma super cama de hotel feita de duas de casal unidas onde dormimos os quatro tranquilos e felizes. Onde a L. dorme no meu colo, onde o G. come uma maçã  com as pernas na parede. Onde o nosso amor tem forma de paz e gente.

generalizações bacocas

Estou farta da mensagem passada a mulheres e por mulheres que diz que cuidar de si é fazer as unhas, é comprar pincéis de maquiagem, é não sair de casa sem rímel ou tirar meia hora por mês para ir ao cabeleireiro. Farta de que me digam que cuidar de mim é comprar roupa nova, ir ao ginásio (porque cuidar de mim é emagrecer) ou começar uma dieta.

Cuidar de mim não é isso.