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a natureza do sistema solar é que tudo rebente, e improvável foi a vida

Amor é: ser evidente que preferimos morrer antes. (…) Às vezes, rápida como o meteorito de amanhã, essa angústia passa por ele, se valerá a pena viver não querendo morrer antes de alguém.

Deus-dará, Alexandra Lucas Coelho

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Quando as pernas deixarem de andar, caminharemos pelas memórias. Quando as pernas deixarem de andar e os olhos deixarem de ver, caminharemos pelas memórias e estas serão nítidas. Quando as pernas deixarem de andar e os olhos deixarem de ver e os ouvidos deixarem de ouvir, caminharemos pelas memórias e estas serão nítidas e as vozes esquecidas contarão tudo de novo. 

Susana Moreira Marques, Agora e na hora da nossa morte

felipa vacondeus volta, estás perdoada

Os apresentadores portugueses do 24Kitchen dão-me vontades de serra eléctrica.

momento josé rodrigues dos santos

(ou a São João foi de férias e alguém tem de a substituir)

Já posso fazer sopa de peixe com leite das mamas.

guilty pleasures ao sábado de madrugada

O Patrick Swayze era um azeiteiro, confessemos. Vestia aquelas camisolas tipo interior (a que os amaricanos chamam wife beaters, coisa linda!), mas em preto que é mais cool e menos filho de mecânico, calçava texanas como toda a gente naquele tempo e tinha um corte de cabelo digno dos passarinhos da ribeira. Mas dançava e fazia aquele sorriso de cama, com o nariz enrugado e o lábio levemente mordido, e nobody puts baby in a corner e pronto, nós feito patinhas. Now I had the time of my life ainda me arrepia nos dias bons.

para encerrar de vez o tema bilf

Oh pá, a sério? O Pipoco? A sério?

(e sim, eu sei que aquilo é – ou espero que seja, vá – uma personagem. A Anna Karenina também é e é uma chata de primeira, dizer mal dela não é dizer mal do Tolstoi, eu sei lá, nunca o conheci!)

trezentos e tantos dias de saudade

Há um ano o mundo desabou. Há um ano partiste, mãe, por vontade tua e por tuas próprias mãos. Por vontade de partir, falta de vontade de ficar, falta de força falta de ar falta de vida. Não sei se há um ano decidiste que já não valia a pena ou se não foi uma decisão, se foi o escape possível. Ainda não sei e nunca hei-de saber, porque há um ano tu foste sem nos dizer nada e eu não sou capaz de decidir para mim a razão pela qual te acabaste.

Há um ano trezentos e sessenta e alguns dias, tantas horas tantos sonhos tanto nada.

 

com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça, com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. 

é fácil de entender quando queremos que o tempo nos faça fugir de alguma coisa, de um acontecimento, inicialmente contamos os dias, às vezes até as horas, e depois chegam as semanas triunfais e os largos meses e depois os didácticos anos. mas para chegarmos aí temos de sentir o tempo também de outro modo. perdemos alguém, e temos de superar o primeiro inverno a sós, e a primeira primavera e depois o primeiro verão, e o primeiro outono. e dentro disso, é preciso que superemos os nossos aniversários, tudo quanto dá direito a parabéns a você, as datas da relação, o natal, a mudança dos anos, até a época dos morangos, o magusto, as chuvas de molha tolos, o primeiro passo de um neto, o regresso de um satélite à terra, a queda de mais um avião, as notícias sobre o brasil, enfim, tudo. e também é preciso superar a primeira saída de carro a sós. o primeiro telefonema que não pode ser feito para aquela pessoa. a primeira viagem que fazemos sem a sua companhia. os lençóis que mudamos pela primeira vez. as janelas que abrimos. a sopa que preparamos para comermos sem mais ninguém. o telejornal que já não comentamos. um livro que se lê em absoluto silêncio.

o tempo guarda cápsulas indestrutíveis porque, por mais dias que se sucedam, sempre chegamos a um ponto onde voltamos atrás, a um início qualquer, para fazer pela primeira vez alguma coisa que nos vai dilacerar impiedosamente porque nessa cápsula se injecta também a nitidez do quanto amávamos quem perdemos, a nitidez do seu rosto, que por vezes se perde mas ressurge sempre nessas alturas, até o timbre da sua voz, chamando o nosso nome ou, mais cruel ainda, dizendo que nos ama com um riso incrível pelo qual nos havíamos justificado em mil ocasiões no mundo.

Valter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis