observações no exercício da maternidade 

[ou teorias a que me agarro para justificar a indiferença do puto a quase tudo]

Quando se é pequenino e tudo é novo não há grandes surpresas porque tudo é surpresa. Antes de sermos capazes de nos maravilharmos com o extraordinário temos de construir uma linha basal do ordinário, viver imersos no comum. Só depois de embotarmos os sentidos de cinzentos é possível sentir surpresa e deslumbramento perante um arco-íris. 

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ao contrário 

Vi esta fotografia da Zadie Smith, de olhar tão triste e distante, e fiquei a pensar em como há tantos meses que não penso em coisas. A vida atropela-nos e põe-nos a funcionar em piloto automático, numa espécie de sobre-vida mais que vida, sempre à espera que alguma coisa acabe para que a real vida comece e sem perceber que isto é que é a vida. E fiquei a achar que os grandes escritores, os que pensam a fundo nas coisas, não podem ter vidas e filhos e empregos porque senão não lhes sobra tempo para pensar. Não são sós porque são grandes, são grandes porque são sós.

a natureza do sistema solar é que tudo rebente, e improvável foi a vida

Amor é: ser evidente que preferimos morrer antes. (…) Às vezes, rápida como o meteorito de amanhã, essa angústia passa por ele, se valerá a pena viver não querendo morrer antes de alguém.

Deus-dará, Alexandra Lucas Coelho

respirar fundo 

Vais inscrever o teu filho na natação e a tua principal preocupação não é escolher o melhor professor, tecnicamente, mas o melhor ao nível dos afectos. E percebes que se calhar até estás no bom caminho para seres a mãe que achas que deves ser.

(e depois até escolhes o mais giro e tudo, olhó universo a piscar-me o olho. Verde!)

praticar a vulnerabilidade

É dizer que, quatro anos e meio depois, ainda acho, por milésimos de segundo, que vejo a minha mãe passar na rua. É dizer que fui má filha. Que não soube chegar a tempo. Mas também reconhecer que talvez não dependesse de chegar ou não, porque ela queria mesmo muito morrer.

É admitir que o meu relógio biológico quer muito outro filho mas eu não sei se estou preparada para passar mais dois anos sem dormir. Não sei se eu aguento, se o meu casamento aguenta. Não sei se quero, apesar de querer.

É falar da angústia em forma de bola na garganta que não me larga, deste encontrar-me aqui, outra vez dependente de um exame que decida toda a minha vida. Mesmo sabendo qual é o meu lugar, sabendo que o mereço e que seria incrível nele.

É assumir o peso a mais e a infelicidade que me traz. É enfrentar a verdade de que nada mudará se eu não quiser. E muitas vezes não saber se quero, se consigo, se.

É arrastar noites em claro, adormecer de madrugada e acordar com beijos pequeninos. E morrer um bocadinho por dentro sempre que me lembro que ele não vai ser meu para sempre. É cheirá-lo e enchê-lo de beijos e mimos e colo e cócegas para saber de cor cada célula, cada gene, cada átomo. 

É esperar uma mensagem que não chega. É ter saudades de quem já não está, levado pela morte ou pelo desinteresse. 

É olhar para dentro. É ser mais eu.
(em resposta ao repto dela)

dress for the job you want

Quando me fui inscrever na ordem dos médicos disseram-me que podia escolher o nome profissional que quisesse. Tive que me conter para não escolher Mariana mother of dragons disease slayer and yes sometimes it is lupus.

moratória

Ainda não fiz o juramento de Hipocrates, por isso ainda posso matar dois ou três frequentadores assíduos da biblioteca que gostam de falar ao telemóvel/conversar/ouvir as notícias nos computadores sem phones, certo?

querida maria

Não sei tirar selfies, serei normal?