Monthly Archives: Maio 2014

attemborough entre fraldas

Os workshops para bebés estão na moda. O simples facto de lhes chamarem workshops dava uma dissertação, quando os bebés vão lá para a) chorar, b) sentar, olhar, babar e chorar, c) puxar os cabelos uns aos outros, levar uns chapadões e chorar, d) adormecer e acordar a chorar. Mas adiante.
Os workshops para bebés são um must para pais empenhados em criar um bebé inteligente e criativo, dizem (já estão a bocejar?). E atraem fauna muito variada. Analisemos a coisa:
1. Os profissionais do workshop – aqueles pais que vão a todas: workshop de músicas infantis, team building para meias lecas, maratona de yoga para bebés, introdução à análise de mercados para menores de 18 meses. Sabem todos os protocolos, conhecem os formadores, sabem as coreografias e as músicas de cor e fazem questão de o mostrar. Olham com condescendência para os novatos.
2. Os New Age dos tempos modernos – todos vestidos em tecidos naturais, os meninos com colares de âmbar ao pescoço para atenuar as dores dos dentes a nascer. Todos sorrisos, paz e amor, com um sentido de ritmo natural que os faz embarcar no comboínho e bater palmas como quem sente o ritmo no seu íntimo. No fim, bolachinhas de sementes sem açúcar, sem glúten, sem gorduras e sem sabor.
3. Os tiranos da educação – trabalham na formação dos filhos desde o útero. Têm bebés inscritos no Colégio Alemão ou no Luso-Francês desde que o xixi no pauzinho fez aparecer dois tracinhos, e no berçário a criança já tem violino, programação e mandarim. Estão ali porque lhes disseram que a criatividade é importante, apesar de não perceberem bem para quê. Vão para cumprir calendário, que não há-de ser por falta de estimulação que a criança não será CEO de uma multinacional aos 23 anos.
4. Os outros – levam a roupa errada porque ninguém lhes disse que iam ter de se descalçar, sentar no chão e rastejar. Trocam olhares cúmplices e embaraçados com os da sua espécie, enquanto comentam as figurinhas tristes que fazem pelos rebentos. Batem palmas fora de ritmo, cantam fora de tom, alinham em tudo com algum receio mas cheios de vontade.

No fim, todos tiram dez mil fotografias aos bebés em todas as posições. Já os bebés só queriam mexer no cabelo e nos pés uns dos outros, dar trincas no cenário e chorar.

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mamãs há muitas

O meu filho aprendeu a dizer mamã. O que seria um acontecimento deveras emocionante, estivesse ele efectivamente a chamar por mim. Não está. Para o meu filho, mamã (ou mamamamamamamamamã, como ele prefere) é um pedido genérico de socorro, dirigido a quem, no seu campo de visão, lhe parecer mais capaz de o acudir. Estando eu não há para mais ninguém, mamamamã é comigo. E até dava para me deixar enganar um bocadinho, pensar que o rapaz está mesmo a chamar por mim. Não estando eu vai quem estiver, que mamamamã serve a muita gente. Por enquanto.

as eras dos nossos tempos

Sente-se a idade passar também pelo que acontece à nossa volta. Para nós parece ter acabado a época dos casamentos. Normalmente a esta segue-se a dos filhos, mas tem-nos tocado mais a dos divórcios. Não sei se nos divorciamos mais e mais cedo porque temos mais opções ou porque nos empenhamos menos ou porque é mais fácil. Mas a sensação de que à nossa volta tudo desmorona é real.
Espero ter pelo menos 20 anos antes de começar a ouvir que A tem cancro e B morreu de enfarte, que esta velocidade de tempos modernos anda demasiado alucinante.