meu querido ano todo

Gosto de morar numa cidade pequena. Gosto que o arquitecto com quem estou a pensar uma casa tenha sido aluno da minha mãe quando ela estava grávida de mim. Que a irmã dele tenha sido minha professora e que o pai tenha cantado comigo no coro. Gosto que um dos melhores amigos do meu filho seja filho de uma pessoa com quem brinquei quanto eu tinha a idade deles e neto de uma amiga da minha mãe, minha professora de português. Gosto de encontrar na rua uma antiga professora, afamada solteirona que morava com os pais já entrada em anos e de a ver, finalmente, de braço dado com alguém e um ar feliz. Gosto de conhecer quem me vende os legumes, a fruta e o peixe, como a minha mãe conhecia quando eu era pequena. Gosto que quem me vende a fruta e os legumes seja minha vizinha, a quem posso ligar para me trazer as coisas para cima, quando não consigo ir ao mercado. 

Claro que tudo se sabe e privacidade é uma utopia. Mas prefiro isto, estes cruzamentos entre as nossas vidas nas voltas que elas dão ao anonimato frio e sozinho das grandes cidades. 

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5 thoughts on “meu querido ano todo

  1. DS diz:

    Tendo vivido toda a infância e adolescência num sítio como esses, digo sem hesitar que prefiro a liberdade estonteante que as grandes cidades me dão de ser quem eu realmente sou ou quem eu me apetece ser em determinado momento, não só pelo seu anonimato frio e sozinho, mas pela possibilidade constante de começar de novo.

    (Nunca me teria passado pela cabeça começar a correr se tivesse ficado a viver onde sempre vivi, nunca me passaria pela cabeça usar a bicicleta como principal meio de transporte, nem vestir certas coisas que visto, nem nunca teria desenvolvido esta orgulhosa autonomia e resiliência que me faz sentir um ser humano mais inteiro e independente, a tantos níveis, do que alguma vez fui).

    • Mariana diz:

      Percebo. Felizmente sempre me senti livre para ser quem sou, vestir como quero e fazer o que quero onde moro. Mesmo quando não me sentia bem na minha pele ou sobretudo no meu corpo.

      • DS diz:

        Para mim não é só uma questão de ser livre no sentido de não ser alvo de intrigas mesquinhas. Nem só sobre a liberdade de experimentar coisas novas sem julgamento. É a liberdade das amarras da inércia próprias de percorrer os mesmos sítios e de conviver com as mesmas pessoas toda a vida. Se tivesse continuado a viver na minha terra, sei que seria uma pessoa muito menos autónoma e mais dependente da família para o dia-a-dia (não teria aprendido a montar cómodas de IKEA sozinha, por exemplo). Imagino que seja possível esse crescimento no mesmo sítio de sempre, para mim não teria sido.

  2. Tiago diz:

    Boa tarde,

    Aceita parceria (troca de links) entre os nossos dois sites?

    politicaportuguesaeinternacional.blogspot.pt

    O meu é um blog de actualização de notícias e de opinião pessoal sobre política e relações internacionais de dois colegas de carteira do curso de RI da UAL. Destaque para política portuguesa, europeia, brasileira e americana e claro para a nossa paixão comum as relações internacionais mundiais.

    Desde já os meus parabéns pelo seu trabalho e acho que podemos ganhar os dois com esta parceria.

    O que lhe parece?
    Cumprimentos

    Tiago Wemans

  3. M. diz:

    Concordo com o post mas também concordo com o primeiro comentário. As pequenas cidades têm todas essas vantagens, o aconchego de saber que se está seguro e em boas mãos, a entreajuda… mas também propicia cusquices diversas e uma sensação de que tudo o que eu fizer ou disser vai ser comentado, principalmente se for algo diferente. Já deixei de vestir certas coisas por saber que as pessoas da minha terriola iam olhar e comentar e prefiro não usar do que lidar com isso. Se eu hoje sair de casa para caminhar, amanhã toda a gente sabe até as cores das meias que tinha calçadas quando saí. Enfim, mesquinhices.

    Claro que é uma questão de ponderação e equilíbrio, de saber escolher o que é mais importante (a segurança ou a liberdade) e, acima de tudo, uma questão de sermos quem somos sem ligar aos outros. Mas lá que é chato, é, em muitos e muitos aspetos.

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