Category Archives: gaveta dos sonhos

guardar-te assim

Quero guardar a forma como te aninhas em mim durante a sesta, a curva da parte de trás do teu pescoço quando estás concentrado a fazer plasticina. O tom do teu não sei quando vamos pela estrada a adivinhar o que têm dentro os camiões. O teu abrir de olhos suave quando acordas e a forma como saltas logo para junto de mim. Quero guardar o som da tua voz a cantar (andas sempre sempre a cantar, quase sempre o abc), o teu sorriso, o verdadeiro e o falso que fazes quando pedimos um.

Quero guardar sempre a tua teimosia tão minha, a tua impaciência, a tua vontade de descobrir. Quero guardar-te sempre assim pequenino e meu, ao alcance dos meus beijos que ainda curam todas as tuas dores.

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sonhos de domingo

Quando for grande quero ter uma cozinha como a da Helena.

flashback

Há 1 ano estava grávida. Há 2 anos também. Há 3 anos fiz uma grande festa e a minha mãe ainda lá estava. Há 5 anos estava a preparar-me para mudar de vida e seguir, finalmente, o meu sonho. Há 10 anos estava a acabar psicologia, numa relação estagnada e a meses de conhecer o meu grande amor. Há 15 anos entrei para a universidade pela primeira vez, para o curso errado mas onde conheci gente que ainda hoje é a minha gente.
Há 20 anos comecei a namorar a sério pela primeira vez e achava mesmo que ia durar e que íamos casar – felizmente não. Há 33 anos nasci, de cesariana por já ser tão teimosa.

tanto mundo para te mostrar

Quase todos os dias me cruzo com alguma coisa da qual tomo nota mental para um dia te mostrar.

Mal posso esperar por te levar ao nosso paraíso, já não tão particular como quando o conheci, mas ainda assim nosso e feliz. Sei que vais gostar tanto da água fria do rio que até vais converter o friorento do teu pai. E à noite vamos deitar-nos os três cá fora, aconchegados na relva, a ver todas as estrelas que a cidade esconde. Ou a fazer desenhos de luz com pauzinhos em brasa. Vais aprender que o guisado da serra, feito pelo avô, sabe como em nenhum outro lado, que as amoras se apanham nas silvas mais escondidas, o sabor da água da fonte no cântaro de barro.

Quero contar-te tantas histórias, ler-te tantos livros, fazer crescer em ti esta paixão das páginas cheias de letras. Contar-te em segredo, daqui a muitos anos, que os Maias são maravilhosos, passar-tos para a mão antes de seres obrigado a lê-los e esperar para ver se concordas. Ensinar-te a gostar da Sophia, do Eugénio, do Pina com quem a mãe andou um dia a atirar caroços de azeitona a cabeças importantes.

Vou ensinar-te Abril como mo ensinaram e o Zeca e o Sérgio e o Adriano e o Fausto e o Zé Mário vão ser todos companheiros teus, como foram meus fora de época – porque é sempre época de acreditar num mundo melhor. Vamos comprar os cravos juntos e engolir a Grândola à meia-noite, todos os anos como se lá tivéssemos estado.

Um dia teremos as nossas histórias estranhas, como aquela que contava a minha mãe, de me ter apanhado a mim e ao meu pai, de rabo para o ar no chão da sala, eu com 4 ou 5 anos e ele a explicar-me a segunda guerra.

Vou maravilhar-me todos os dias por teres o melhor pai do mundo, que te vai ensinar aquelas coisas que eu não sei, as regras do fora de jogo, como é que se defende uma bola, como esconder joelhos esfolados de uma mãe preocupada. Espero que sejas como ele, que acorda sempre bem disposto, chega a casa todos os dias com um sorriso como se nós fôssemos a melhor parte do dia e tem sempre um truque na manga para nos fazer rir. O teu pai, que mal pode esperar que chegues e te dá tantos beijos antes de irmos dormir.

Vou ensinar-te a avó que não tiveste. Um dia, daqui a muitos, muitos anos, vou contar-te a razão de ela já não estar aqui. É possível que chore quando o fizer, mas não te preocupes. São só as saudades que ainda não vão caber todas cá dentro e me fogem pelos olhos da cor dos dela.

É grande o mundo que te espera cá fora, filho. Cheio de coisas para descobrir, cheio de amor incondicional, cheio de braços para te ajudar a crescer. Por isso vem quando quiseres. Mas não demores muito, já estamos todos cheios de vontade de te conhecer.

a sonhar em suspenso

Ainda não te chamo nada. Ainda não te imagino, não te faço real. Ainda não.

Às 10 semanas por aqui ainda se anda nas pontas dos pés. Ainda se fala pouco, se planeia pouco, se sonha pouco. Ou tenta-se, andamos em gestão de expectativas.

Da última vez desististe de vir lá pelas 8 semanas, acho e não me apetece fazer contas. Desta já vamos nas 10, mas até à próxima consulta não acredito totalmente que estás aí, que o teu coração já bate mesmo que eu já o tenha visto, que te estás a fazer, desta vez a sério, dentro de mim.

Tenho o coração amordaçado mas os dedos todos cruzados.

2013

2013 já traz no bico uma viagem, com que vamos andar a sonhar até Maio.

E traz promessas de vida, lá para finais de Julho. Ainda estava à espera das 12 semanas para vos contar, mas que se lixe, ainda por cima não sou supersticiosa. Para já está tudo bem, estamos todos bem, do alto das nossas 9 semanas. E nosso senhor do novo ano nos livre e guarde de olhares bovinos e fotografias de barriga e nos livre também (que livrará, por mais hormonas que se me cresçam) da moda estranha que desconhecia de emoldurar o pauzinho para onde se fez xixi e onde apareceram as duas risquinhas.

Anda depressa, 2013, já vens cheio de promessas de coisas boas.

mistéeeeerio

Ainda não sei se vou mesmo fazer aquilo que acho que vou fazer em 2013.

*

Se tivesses decidido vir desta vez, era esta semana que chegavas.