Monthly Archives: Janeiro 2014

transbordante

Nada é melhor que o sorriso desdentado do meu filho. A forma como se aninha no meu ombro, braços muito abertos para que eu caiba toda lá dentro.

Racionalmente, ter um filho agora foi a pior decisão da minha vida. Emocionalmente talvez tenha sido a melhor.

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morrer

É idiota dizer que anda a morrer mais gente, mas a sensação é mesmo essa, anda a morrer-me mais gente. Coisa natural, evidente, quanto mais os anos nos passam mais as pessoas nos morrem. Não deixa de ser doloroso o vazio desta cada vez mais recorrente confrontação com a nossa finitude.

Morrem-me mais a cada dia e com eles sempre tu, que me morres ainda um pouco todos os dias.

deslumbramentos ou as saudades que eu tinha de ler

Numa próxima vida quero vir como Alexandra Lucas Coelho.

adorkable

Nada deixa adultos sérios e respeitáveis mais totós que um neto.

falsas indisponibilidades

E a maravilha que são pediatras que nos dão o número de telemóvel e depois não atendem o dito? Adoro.

irracionalidades à sexta de manhã

Faz-me sempre confusão ver quem está lá fora dizer mal do que vai cá por dentro. Não devo, eu sei, está mal, também sei, eles até têm cá família, estão atentos ao que se passa, liberdade de expressão e nhénhénhé. Eu sei isso tudo. Mas fico sempre com uma sensação de treinadores de bancada, velhos dos marretas, malta que pára a ver o acidente que não é com eles. Quando isto se dá em tom de desdém, um eu agora vivo num país mais civilizado e portanto sou superior a essas coisas, só me apetece tirar-lhes a cidadania.

manual de instruções

Dorme duas horas ao colo da minha santa tia, enquanto eu estudo ou faço que sim, que também preciso de gazeta de vez em quando. Acorda à hora de almoço. Mama, sorri, canta a mamar. Depois, sentados na mesa da cozinha, sopa de abóbora para ele e arroz com ovos estrelados para mim. No fim, partilhamos uma laranja, a sua fruta favorita.

Ainda agora nascido, ainda agora na luta para lhe tirar o suplemento e ficar só com a mama, já come. Optámos por seguir a natureza e a curiosidade dele, em vez do calendário, e quando começou a mostrar curiosidade por comer, fomos dando a provar algumas coisas. Foi muito confuso, durante a gravidez, aceitar que não há respostas certas, nisto de começar a dar comida a um bebé. Sossegámos quando percebemos que os primeiros alimentos dos bebés europeus são diferentes dos dos bebés asiáticos, africanos, sul-americanos. Não há certezas absolutas, relaxámos.

E sim, eu sei que um bebé desta idade não deve, segundo os canones europeus, comer laranja. Mas há pediatras de um e doutro lado desta questão – ou seja, mais uma vez, não há uma resposta certa. Ele pediu, nós demos com cuidado. Não fez alergia, continuámos a dar. É a fruta favorita, aquela que come enquanto houver e nós lhe dermos. Ele e nós sabemos mais sobre ele do que qualquer pediatra que o vê uma vez a cada dois meses. O bebé é o seu melhor manual de instruções.

aos quase seis meses e muitos mais sorrisos

Tenho saudades de ser mais que tua mãe , de ser mulher cozinheira amante estudante amiga livre nada. Mas tenho mais sono que saudades, mais cansaço dos dedos dos pés às vértebras à alma do que qualquer sonho de ser outra que não esta. Tenho saudades do silêncio que é maior do que aquele que há quando dormes, em que qualquer salto de gato ou respirar do vizinho parece uma explosão de decibéis. Saudades de dormir fundo, até acordar, de não saltar a cada suspiro. De não ter medo de adormecer, porque o teu acordar está ao virar das pálpebras fechadas e para quê adormecer para ter de acordar em menos de nada. Tenho saudades de mim antes de ti mas já nem sei bem onde me acabei e começaste tu, que a minha vida sem ti parece que nunca existiu.