Category Archives: coisas que gostava de ter sido eu a escrever

conjunto vazio

“The axiom of the empty set is the axiom of zero. It states that there must be a concept of nothingness, that there must be the concept of zero: zero value, zero items. Math assumes there’s a concept of nothingness, but is it proven? No. But it must exist.“And if we are being philosophical—which we today are—we can say that life itself is the axiom of the empty set. It begins in zero and ends in zero. We know that both states exist, but we will not be conscious of either experience: they are states that are necessary parts of life, even as they cannot be experienced as life.”

A Little Life (2015), 

Hanya Yanagihara

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deslumbramentos ou as saudades que eu tinha de ler

Numa próxima vida quero vir como Alexandra Lucas Coelho.

umas coisas bem, outras coisas mal

Este post da São João sobre os miúdos e a escolaridade. Nunca tinha pensado nisto assim e se calhar estamos a ser injustas com muitas crianças de um e outro lado do espectro. Mas que há coisas claramente a precisar de mudar por cá, há.
Este post da Bad Girl sobre os nossos atletas mais jovens, tão pequeninos e tão sensatos, esperemos que não se estraguem com a idade e com os vícios do meio. É bom ver fair play deste.

desavergonhices

 

Continuo a gostar tanto da Soko como quando a ouvi pela primeira vez.

ainda a desejada discussão racional

Mais uma vez, o meu obrigada à clareza de pensamento e discurso da Helena:

1. A barulheira das reacções ao parecer do Conselho Nacional de Ética surpreendeu-me por vários motivos:

– Pareceu-me que as pessoas desataram a gritar, mesmo antes de lerem o parecer. É verdade que as declarações publicadas não primaram pela sensibilidade, mas o parecer em si não merecia esta reacção – insiste na necessidade da transparência, sugere que se olhe para a experiência de outros países, como o Canadá (vá lá que não disseram o Ghana…), e propõe que se use o mais barato dos melhores, o que me parece uma solução razoável. O Paulo Pedroso leu o parecer, e chegou à conclusão – como podem ler aqui – que a proposta é razoável, mas fugiu ao debate ético e dá um cheque em branco ao governo. Não sei como aconselhar “o mais barato dos melhores” e “mais transparência na decisão” seja um cheque em branco ao governo, mas deixo aí o link para quem o quiser ler e debater.

– O tipo de argumento usado (“a eutanásia dos pobres”, “o Mengele não faria melhor”) lembra-me a história de Pedro e o lobo: se invocam o nome de Mengele para isto, que nome usarão para reagir caso o SNS português seja alvo de reformas como o britânico?

– Vivo num país onde há dezenas de anos se diz que o sistema está a chegar aos seus limites, e que mesmo que se aplicasse todo o dinheiro disponível na saúde, não seria possível financiar tudo o que seria desejável, pelo que é preciso fazer escolhas e tomar decisões. Há cerca de dez anos começaram a aumentar as contribuições e a reduzir o leque de prestações – e as pessoas aceitam, porque percebem que essa é a única maneira de preservar o sistema público de saúde.
Para mim, é um dado adquirido que não há recursos suficientes, e que não posso exigir da minha sociedade solidária que invista na minha saúde para lá do razoável. (OK, depois vamos discutir – de cabeça fria e sem chamar para aqui o Hitler – o que é “razoável”.)

– Pergunto-me em que país vivem as pessoas. Porquê esta gritaria agora? Porque é que se lembram do Mengele a propósito de três medicamentos caríssimos, e não dizem nada quanto à duração da lista de espera para operar tumores malignos? Qual é o período médio de espera para essas operações, hoje em dia? Na Alemanha espera-se no máximo uma semana; em Portugal, uma amiga minha esperou meio ano (podia ter metido uma cunha para passar à frente na lista, mas não meteu – e só esta frase seria motivo para muita gritaria, mas estranhamente ninguém parece muito incomodado com o sistema de cunhas que acompanha o SNS).

Contudo, compreendo em parte esta reacção: num país em regime de austeridade e consequente recessão, onde as pessoas têm preocupações realmente existenciais e todos os dias contam receber mais notícias terríveis, aparecer alguém a falar de forma insensível e pouco articulada sobre a necessidade de poupar no sector da Saúde faz soar todas as campainhas de alarme.

2. Falaram em humanismo, e pediram-me filosofia.

Em termos de filosofia, sou muito Sócrates: só sei que nada sei, e por nada deste mundo queria fazer parte dessas Comissões de Ética, ou ser Ministra da Saúde. E sou um bocadinho Diógenes: a filosofia começa em casa. Mais concretamente: eu não quero que os meus filhos vendam a casa para pagarem uma remota possibilidade de me prolongarem a vida duas semanas ou dois meses. Do mesmo modo, não quero exigir da minha sociedade solidária um esforço exagerado para me oferecer o melhor de tudo, em termos de saúde. Entre investir 100.000 euros nas últimas semanas da minha vida, ou (isto sou eu outra vez a delirar) mandar vir por uns tempos uns médicos búlgaros que operem no turno da noite, de modo a reduzir substancialmente o tempo de espera para operações de tumores malignos, prefiro que me deixem morrer em paz e fiquem lá com os 100.000 euros para fazer essas operações.

O Philippe Ariès tem um livro muito interessante, “História da Morte”, onde ilustra o modo como as sociedades olham para a morte dos humanos. Enquanto o homem medieval reconhecia o momento em que a morte chegava, e o enfrentava com naturalidade, as pessoas do nosso tempo morrem não porque a morte faça parte da vida, mas porque a medicina falhou. O que explica que nos últimos dez dias da vida de uma pessoa se gastem enormidades em medicamentos e máquinas. Claro que nunca sabemos quando começou a contagem decrescente dos dez dias (ou não queremos aceitar) – o que torna a decisão de desistir muito complicada. Mesmo assim, convém termos isso presente: a vida humana tem um valor inestimável, mas nem todo o dinheiro do mundo nos livra da nossa morte.
A propósito: uma amiga falou-me do conselho que lhe deram no hospital: “leve o seu marido para casa, porque a gente aqui não o pode ajudar, e ao menos ele sempre morre ao lado dos que o amam”. Vão dizer que isto é uma medida economicista, ou de pura humanidade?

3. Disseram que todos têm direito a iguais cuidados de saúde, independentemente da idade e do meio social.
Quanto à idade: sabemos que não é assim. Se houver um coração para transplantar, dão-no à pessoa de vinte anos e não à de oitenta. Se houver apenas um pulmão artificial disponível, entre mim e um miúdo de cinco anos vão escolher o miúdo de cinco anos. Mesmo que eu tenha um seguro de saúde privado, o tal coração e a tal máquina serão dados a alguém mais novo e com mais hipóteses de poder aproveitar o uso desse bem escasso (há regras que só o crime pode contornar).
Quanto ao meio social: pode ser influência do que tenho ouvido na Alemanha, mas sinto-me bem com isso – a sociedade garante um standard de elevada qualidade; quem quiser mais que isso (exames de rastreio com mais regularidade que a garantida pelo SNS, quarto de duas camas no hospital, determinados tratamentos dentários, medicamentos de ponta – que, diga-se de passagem, nem sempre são sinónimo de qualidade -, tratamento hospitalar monitorado pessoalmente pelo chefe de serviço, determinado tipo de óculos, etc.) tem de fazer um seguro complementar. Se é fundamental que se assegure um nível muito digno de cuidados de saúde para todos, já tenho as minhas dúvidas que seja necessário e viável dar a todos aquilo que os mais ricos podem comprar.
Parece-me que temos de ter cuidado com os princípios, e ter presente que o óptimo pode ser um inimigo mortal do bom. E o bom é o Estado Social que ainda temos, e que é o possível tendo em conta a nossa situação económica (e nem vou falar da financeira).

4. Falaram em corrupção dos políticos, má distribuição de recursos, má gestão, necessidade de impedir as fugas aos impostos, etc. O costume.
Não vou discutir isso – muito há para fazer. Mas neste momento havia que responder a uma questão concreta: que critérios definir para o uso de três medicamentos que no ano passado custaram ao SNS 500 milhões de euros. Não podemos adiar esta resposta até termos cumprido a agenda moral e social que, como povo, andamos a empurrar com a barriga há centenas de anos.

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(todo o texto é da Helena e pode ser lido aqui)

há aqui uma metáfora qualquer sobre não ficar à espera que as coisas aconteçam


Uma nêspera 
estava na cama 
deitada 
muito calada 
a ver 
o que acontecia

chegou a Velha 
e disse 
olha uma nêspera 
e zás comeu-a

é o que acontece 
às nêsperas 
que ficam deitadas 
caladas 
a esperar 
o que acontece 

Mário-Henrique Leiria