Category Archives: gaveta da saudade

praticar a vulnerabilidade

É dizer que, quatro anos e meio depois, ainda acho, por milésimos de segundo, que vejo a minha mãe passar na rua. É dizer que fui má filha. Que não soube chegar a tempo. Mas também reconhecer que talvez não dependesse de chegar ou não, porque ela queria mesmo muito morrer.

É admitir que o meu relógio biológico quer muito outro filho mas eu não sei se estou preparada para passar mais dois anos sem dormir. Não sei se eu aguento, se o meu casamento aguenta. Não sei se quero, apesar de querer.

É falar da angústia em forma de bola na garganta que não me larga, deste encontrar-me aqui, outra vez dependente de um exame que decida toda a minha vida. Mesmo sabendo qual é o meu lugar, sabendo que o mereço e que seria incrível nele.

É assumir o peso a mais e a infelicidade que me traz. É enfrentar a verdade de que nada mudará se eu não quiser. E muitas vezes não saber se quero, se consigo, se.

É arrastar noites em claro, adormecer de madrugada e acordar com beijos pequeninos. E morrer um bocadinho por dentro sempre que me lembro que ele não vai ser meu para sempre. É cheirá-lo e enchê-lo de beijos e mimos e colo e cócegas para saber de cor cada célula, cada gene, cada átomo. 

É esperar uma mensagem que não chega. É ter saudades de quem já não está, levado pela morte ou pelo desinteresse. 

É olhar para dentro. É ser mais eu.
(em resposta ao repto dela)

enquanto houver estrada para andar 

Estou sentada num café de onde vejo a tua casa mas que não existia quando morreste. Daqui a cinco minutos o pai vai sair de casa para ir levar o meu filho à escola, o neto que não conheceste. O pai agora joga golfe, sabes? E eu praticamente já acabei medicina. A S. fez 30 anos! 

Mudou tanta coisa e, ao mesmo tempo, nós continuamos parados naquele dia 1 de março, quando o telefone tocou. Eu continuo a pensar, por fracções de tempo cada vez mais pequenas, que tu hás-de voltar. 

Tenho saudades tuas, mãe. E doí-me todos os dias ver aquilo que estás a perder.

antes do adeus

Faz esta noite 3 anos, o princípio do fim. Não foi o princípio, tudo começa muito antes de percebermos que começou. Mas foi e será sempre o princípio.

infinita gratidão

Tens 13 meses. Sobes e desces do sofá com uma ligeireza de quem tem mais e a despreocupação de quem não conhece consequências. Corres atrás das pombas no parque e é difícil acreditar que só caminhas há dois meses. Tens 13 meses, tão grande e tão bebé, tanto tempo e tão nada.
E eu escrevo para não esquecer, com medo que a memória e a mudança me levem para sempre este bebé que já quase não és.
Quero lembrar sempre o fascínio e o brilho nos teus olhos quando murmuras baixinho a palavra água. A forma como danças em qualquer lado, havendo música – até no meio da rua, ao som do rádio de um carro parado. Os xi-corações e os beijos que me dás. Os teus acordares tão doces, cheios de sorrisos e mimos. A forma como dizes mamã a meio da brincadeira, como quem diz olá e se certifica que continuo ali. O sorriso, esse sorriso de dentes grandes à espreita, tão doce, tão igual ao meu.
Quero lembrar-me de ti e do pai. Do amor doce que ele tem por ti, da felicidade que sente quando deixas que ele te adormeça. De como é ainda tão surreal que tenhas sido feito por nós, do nada. E tu ao colo dele, depois do jantar, sentados a ver os carros na varanda, os teus pés pequeninos nas mãos dele.
Quero lembrar-me de tudo, das tuas conquistas e feitos, mas mais que isso quero lembrar-me de ti, dos teus contornos, das tuas expressões, do teu cheiro. É tão fácil esquecer, filho. E com as tuas mudanças tão constantes já nem me lembro bem como era o teu peso pequenino no meu colo. Não me lembro do teu choro ao nascer, mas nunca serei capaz de esquecer como era macia a tua pele, tão suave que parecia que não tocava em nada, quando te fazia festas nas bochechas. Que sorte, que sorte ter podido ser tua mãe a tempo quase inteiro, nestes 13 meses.

Queria filmar-te a toda a hora para nunca esquecer mas decido sempre que viver-te é mais importante. E espero que a memória nunca me traia completamente e nunca te leve todo de mim.

ceci n’est pas sobre bola

Sem a minha mãe fiquei só eu num mar de azuis. A minha mãe era do Sporting e eu sou do Benfica, mas juntas éramos do anti-andrade. É feio, anti-desportista, o que quiserem. Mas era assim. Ela torcia pelos meus, eu torcia pelos dela, juntas torcíamos contra o Porto. Menos na Europa, lá fora éramos todos portugueses, embora uns um bocadinho menos que os outros. Sem a minha mãe fiquei eu no meio de tantos azuis.
Ontem ganhei, mãe. Este ano fomos nós. Nós porque foi o Benfica, mais nós porque não foi o Porto. É feio, pouco desportivo, o que quiserem. Éramos nós. E até esse vazio me ficou.

para sempre mãe

Há dois anos, na manhã de uma quinta-feira, a minha mãe suicidou-se. A depressão que a comia por dentro há demasiado tempo levou a melhor e ela foi incapaz de continuar a lutar. Não se despediu, não sei se foi sequer planeado. Acredito – ou quero acreditar – que não. Há dois anos a depressão, que as pessoas pequeninas continuam a acreditar não ser uma doença a sério, uma doença que pode matar, matou a minha mãe.

Durante muito tempo (e ainda hoje, por vezes) a culpa. De não ter visto os sinais, de não ter percebido que era tão fundo e escuro o buraco, que eram tão imensos o desespero e a impotência. Durante muito tempo a raiva, estar zangada com ela por ter feito o que fez. Durante muito tempo o não saber como seguir em frente, achando que nós não tínhamos sido o suficiente para ela querer ficar.

Ainda a sensação de desperdício, a surrealidade do acto, da transformação nas nossas vidas, do desaparecimento súbito e permanente. O peso deste para sempre tão impossível.

Para sempre a saudade. A pena pelo neto que ela nunca conhecerá, pela avó que o meu filho nunca terá. Para sempre as memórias, as suas mãos, a sua voz. Para sempre o vazio. E o amor.

quase

esta noite sonhei contigo e era mentira que já cá não estavas, quase que te vi virar a esquina como me acontece tantas vezes acordada, quase a tua figura pequenina e despachada nas pessoas que passam ao longe e que quando se aproximam afinal não és tu. era mentira e tu ainda cá estavas, as tuas mãos que não esqueço, o teu riso que partiu muito antes de ti. as saudades iam desaparecer, vinhas aí e o abraço daquele domingo não era, afinal, a ultima vez que te via.

dois anos hoje. era o principio do fim e nós sem saber. ou sabendo e sem querer acreditar. tenho tantas saudades tuas.

morrer

É idiota dizer que anda a morrer mais gente, mas a sensação é mesmo essa, anda a morrer-me mais gente. Coisa natural, evidente, quanto mais os anos nos passam mais as pessoas nos morrem. Não deixa de ser doloroso o vazio desta cada vez mais recorrente confrontação com a nossa finitude.

Morrem-me mais a cada dia e com eles sempre tu, que me morres ainda um pouco todos os dias.