Monthly Archives: Novembro 2012

cá não somos politicamente correctos #2

Eu sei, eu sei, não se diz, não se reforça o estereotipo, não se apoia a misoginia. Por isso não leiam ou esqueçam que eu disse, mas eu vou dizer: há demasiadas mulheres más condutoras nas nossas estradas. Os homens são aceleras, fazem manobras perigosas e ensandecidas, mas elas são perigosas por serem atadas, por serem nabas, por engonharem o trânsito, por enconarem as filas, por não saberem onde são os pedais nem para que servem. Demasiadas vezes vejo carros a fazer determinadas asneiras e já sei que é uma mulher que vai a conduzir. E isto deixa-me furiosa e frustrada, porque há mulheres que conduzem incrivelmente bem mas depois é por estas tontas que ganhamos a fama.

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cara de joelho

Já sei que é daquelas coisas que não se diz e que quase apetece bater na boca quando se pensa, mas há por aí bebés muito feios.

é inverno mas ando sempre cheia de calor

Levanto-me e penso no que vestir, está frio lá fora mas já sei o que me espera. Camadas camadas camadas e um casaco quando me lembro, está calor em casa e calor no hospital, raramente me lembro que tenho a rua entre os dois e depois a rua ao almoço se tiver tempo de vir cá fora e a rua entre o hospital e as consultas. Chego ao hospital e equilibro casaco e carteira numa mão, abro o cacifo com a outra (tão pequenina esta mudança mas tão grande cá em mim, cacifo no hospital, até o porta-chaves toca diferente), enfio lá dentro a carteira, tiro a bata o estetoscópio o caderno o estojo o bloco de notas e encafuo o casaco e o lenço e a camisola e se for preciso mais uma camisola. Enfio a bata, ocupo-lhe todos os bolsos, penduro o estetoscópio ao pescoço não porque dá estilo mas porque quando o levo no bolso não me lembro e ando aos encontrões a tudo e qualquer dia tenho o aparelho mais surdo que uma porta. Atravesso os corredores gelados do edifício velho (chamamos-lhe nós, clássico chama-lhe quem não gosta de dar os nomes às coisas) e entro nos serviços quentes quentes quentes e nas enfermarias ainda mais quentes mais quentes abafadas, o suor a escorrer-me pelas costas o cabelo a colar-se à nuca as quase tonturas as bochechas vermelhas cor de vinho (e nem levo barricas no bolso da bata). No regresso o percurso inverso, enfiam-se as camadas no corpo, as tralhas à pressa na carteira, a bata sem dobrar dentro do cacifo. Todos os dias o frio cá de fora a contrastar com o calor que se nos entranha nos ossos e aquela sensação de que os hospitais deste país andam a contribuir fortemente para o efeito de estufa.

Cá fora havia castanhas que nunca antes tinha havido, mas o negócio devia estar fraco e mudaram-se sem eu ter tido tempo de as provar. Uma vez foi quase quase, mas tinham acabado e ainda estavam quase a sair as seguintes quando chegou a minha boleia, tenho de ir disse eu ao senhor, fica para a próxima, sem saber que não haveria próxima, que a banca das castanhas com o Mickey e a Minnie não estaria lá dias depois.

promessa de natais futuros

Tu não gostavas do Natal. Dizias sempre que era uma época difícil, por causa de todos os que já tinham partido. Nós achávamos que eram poucos, só o teu pai e ainda por cima há tanto tempo. E os avós, mas esses há mais tempo ainda e, parecia-nos, natural na tua idade. Mais recentemente o tio e aí já percebemos melhor, afinal ele também nos faltava a nós.

Custava-nos muito que não gostasses do Natal. Porque para nós o Natal era feliz e não percebíamos como poderia não ser. E azucrinávamos-te a cabeça, tentávamos dar-te a volta, para que te juntasses a nós e à nossa alegria.

Este ano não vai ser Natal para nós. Não vai haver a mesa posta com tanto cuidado pelas tuas mãos, cheia de estrelinhas douradas e velas vermelhas. Não vamos ouvir vezes sem conta aquele disco das músicas de Natal em coro africano. Não vamos dar-te uma prenda, um beijo, acabar a noite no sofá, depois de toda a família ter ido embora, a ver filmes antigos enrolados em mantas. Este ano não há Natal porque tu nos faltas.

E por isso esta promessa que agora faço tem data marcada. Não começa este ano, espero que comece no próximo. Não vou – não quero – deixar que o Natal deixe de existir para mim. Não vou ser como tu eras – e eu percebo agora por que o eras – por me faltares tu. Quero viver todos os Natais com a certeza de que estás aqui, em mim, em nós. E nos filhos que ainda não tenho e pelos quais vou aprender a gostar do Natal outra vez.

thanksgiving

Grata pelas segundas oportunidades. Pela saúde, pelo conforto, pelo calor da casa. Grata pelos peludos. Grata pelo amor, grata por estar viva, grata por ser, apesar de tudo, feliz.

Não é fácil estar grata no pior ano da minha vida. Mas é preciso lembrar, todos os dias, que continuo a ter muito por que agradecer. E agradeço.

complexo divino

Dizem que os médicos são seres arrogantes e eu acredito. A muitos falta humildade, capacidade empática, espírito de serviço. Uma das minhas piadas favoritas é a que pergunta sobre a diferença entre um médico e deus e responde que deus não tem a mania que é médico.

Mas, pensava eu, claramente enganada, que esta coisa da arrogância só lhes entrava pelos poros a pulso, fruto da experiência e do incrível que deve ser salvar algumas vidas. Ou, vá, que lhes podia dar no início, ao entrar no curso melhores alunos deste mundo e arredores, para lhes ser depois arrancado a ferros pelos verdadeiros campeões da coisa que lhes dão aulas todos os dias, desaparecendo por uns anos para voltar, então, com a prática.

Espanto-me todos os dias com a inocência do meu engano. Se eu, que acredito piamente que a minha camisola é verde, ouvir alguém a quem reconheço muito mais experiência e sabedoria dizer que é vermelha, vou acreditar. Posso bombardeá-lo de perguntas, encher-lhe os ouvidos até perceber, mas vou acreditar. Não me vou embora a dizer que o senhor hoje não está bom da cabeça, então a camisola não é obviamente verde, numa arrogância que já devia ter desaparecido ou ainda não devia ter regressado.

Tenho muito medo de futuros médicos assim.

intermináveis dias de telha

Este fim-de-semana quero fazer naan e frango tikka masala. Quero amassar um pão de sementes, adiantar o livro que se arrasta pela cabeceira e finalmente mudar a orquídea de vaso. Quero estender-me no chão, a ver a chuva lá fora.

Em vez disso, vou escrever sobre a terapia electroconvulsiva, sobre os tumores neuroendócrinos do pâncreas e sobre as neoplasias pós transplantação renal.

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o meu lidl é menos macho que o teu

Pois que fui ao Lidl, à procura das tais barricas alcoolizadas, para enfiar no bolso da bata e distribuir aos doentes mais chatos ou enfrascar-me disfarçadamente, na desculpa da fraqueza de estar há tantas horas sem comer. Mas, azar do caraças, o meu Lidl não está para alimentar vícios e o mais interessante que lá consegui encontrar foi uma caixa panisguinhas de Raffaello. Não se convencem doentes com bombonzinhos de côco branquinhos e fofinhos nem se afogam frustrações em chocolates doces e felpudinhos, mas se é o que temos então venha.