Monthly Archives: Abril 2012

a democracia das manhãs a duas

Há dias em que acordamos de manhã – eu e a minha pele, que dada a bela vontade própria de que é dotada mais parece um alter ego de minha pessoa ou, quiçá mesmo, um indivíduo de direito – e pensamos caramba, se calhar está na altura de começarmos a usar base. E já que vamos por aí, um rimelzinho também nos dava um ar mais ajeitado. E pronto, se há base e rímel então venha um pequeno e discreto risco, que já temos 31 anos e já começa a parecer mal.

Mas rapidamente nos lembramos que isso implicaria mais uns 15 minutos todas as manhãs, a somar ao mais ocasional do que deveria mas ainda assim frequente  creme hidratante com protector solar. E acrescentamos os 15 minutos à noite, para tirar toda aquela porcaria da cara, a somar ao (mais esporádico) ritual de lavagem e creme hidratante e para as primeiras rugas (que ainda não temos, ora, nota-se que é eficaz). Por unanimidade  decidimos que dormir é que é e adiamos a base e o rímel quiçá para os 32, porque o que seria desta cútis de (quase) pêssego se não fossem esses minutos extra.

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Hoje o meu 25 de Abril é menos 25 de Abril porque cá não estás, mãe. Tu, que  com o pai me ensinaste que a liberdade foi ontem e é hoje e que devemos celebrá-la como se todos os dias precisasse que nos lembrássemos disso. Hoje não há cravos cá em casa. Porque os íamos comprar juntas ou uma para a outra. Hoje a Grândola e o Depois do Adeus não farão mais que lembrar-me que já cá não estás.

Para o ano, mãe, haverá liberdade outra vez. Hoje fico-me só pela saudade, que já é mais do que consigo suportar.

something to look forward to

Há uns tempos pus-me a pensar em como é importante ter no horizonte algo com grande potencial de felicidade. Para que os dias menos bons sejam mais toleráveis, porque há terra à vista.

Pisa-Lucca-Volterra-San Gimignano-Siena-Montalcino-Montepulciano-Castiglione del Lago-Cortona-Pisa em 3 dias e meio. Prevejo muitas dores nos pés, poucas horas de sono, muita lambança e a alma cheia.

planos para o interregno

Nas próximas semanas vou enfardar todo o sushi, enchidos, bifes mal passados e saladas fora de casa que o meu estômago aguentar. Vai ser o verdadeiro tour gastronómico do Toxoplasma gondii. Posso não ficar imune, mas consoladinha fico de certeza.

[edit] E álcool. Como é que me esqueci do álcool? Caipirinhas, mojitos e vinho tinto do Douro, vinde a meus copos.

dez quilos a menos no peito e respirar fundo é possível outra vez

E pronto, já não estou grávida.

E que alívio, finalmente. Porque sim, eu queria e quero. Mas já sabia que não era desta e com tantas bolas que tenho no ar ao mesmo tempo, a espera estava a dar cabo de mim. Neste momento, há muitas coisas na minha vida que não consigo resolver, não preciso de lidar com o eterno adiamento daquelas com solução.

Agora posso seguir em frente. E voltar a tentar, assim que o corpo disser que já está pronto.

antes entrasse mosca do que sair tanta asneira

E agora que já ninguém me tira o título da mais coitadinha da blogosfera nacional, acham que também posso escrever um livro? Acho que tinha muito a ensinar e até já tenho título: Coisas idiotas que se dizem em funerais ou como é melhor estar calado se o que lhe ocorre dizer é isto. Prometo que os assino todos e até lhes deixo cair uma lágrima, em jeito de borrão, sobre a dedicatória.

quisera eu beber dessa luz que apaga a noite em mim

Um bebé não pode ser tábua de salvação. Mas quando um de nós decide que já não quer estar aqui e nenhum dos que cá ficam consegue perceber porquê, um bebé torna-se numa promessa de dias melhores. Promete um Natal menos triste e vazio. Promete que as feridas deixam de doer tanto. Porque um bebé é uma continuação, um prolongamento de nós no tempo, um quarto da vida que já cá não está que permanece.

E quando essa promessa ameaça não o ser, voltamos a ficar à deriva. Sem saber a que pedras amarrar o caminho, porque tudo parece demasiado pequeno e insignificante. Temos-nos uns aos outros. Mas se nos agarramos a gente à deriva, só significa que nos perdemos juntos e não necessariamente que construímos uma ilha ali no meio do nada.

a não cuspir para o ar

Queria eu poder garantir que, quando for a minha altura, terei a sabedoria e a humildade de não tratar os meus doentes como mentecaptos. E explicar-lhes as coisas, em palavras que percebam e de forma a que fiquem esclarecidos e calmos. E não insinuar que se enganaram nas contas, que sei melhor do que eles em que dia viram dois riscos num teste, em que dia lhes morreu a mãe ou em que dia foi feita a criança que pode ou não estar dentro deles.

Gostava que os médicos descessem de uma vez da cadeira que acham que têm ao lado de deus. Porque se há ciência que não é exacta é a medicina, que se faz de indivíduos todos diferentes, ainda que todos mais ou menos iguais. Gostava de acreditar que, por já ter estado do lado de lá, serei melhor médica. Dizem que a arrogância de pensar que toda a gente sabe menos do que nós nos sobe à cabeça sem darmos por ela. Mas vou estar atenta, juro que vou. Para não acordar um dia a achar que o céu é verde, só porque há uma máquina que me diz que sim.